Capítulo 109
Luca Black
Olhava pro meu rosto como se perguntasse: nós somos o mesmo homem? Eu queria responder com os punhos. Queria a ponta do meu cano roçando o osso do maxilar dele até ouvir estalar. Mas havia uma mulher na sala. E havia uma verdade recém-parida que precisava respirar.
— Você se tornou Don como seu pai queria. — ele sussurrou, quase cordial, quase um brinde. — O Don perfeito. O filho perfeito. O herdeiro limpo.
— O herdeiro vivo. — eu corrigi, frio.
A palavra bateu nele como tapa. Vivo. Ele piscou, virou o rosto de volta pra minha mãe. A respiração dela estava diferente. Descompassada, ruidosa. A mão que antes segurava o sofá agora apertava o próprio peito, bem no meio, como quem tenta segurar o coração no lugar.
— Mãe? Está tudo bem? — falei, antes dele. E dei dois passos. — Mãe, olha pra mim.
Ela me olhou. Mas parecia que olhava através. As pupilas rugosas, brilhando. Senti o músculo do meu estômago contrair. Lembrei da conversa mais cedo, do “problema cardíaco, diabetes… esses estresses não vão me deixar viver os últimos anos em paz”. Lembrei de cada coisa que eu ignorei em nome da pressa. Ou pensando em como ela amava mais o Jackson ou não.
— Senta direito. — orientei, já abrindo o botão do meu casaco pra ter mais mobilidade, soltando a arma para Derrick segurar. — Respira comigo. Devagar.
Mas ela estava estranha. Eu senti meu peito doer. Doer pra caralho.
Jackson estava ao lado dela antes de mim, de joelhos. E por um instante, vi o menino. O menino que eu nunca conheci. A palma dele pousou torta sobre a mão dela.
— Não morre. — ele disse, um sussurro gasto. — Não me deixa. Eu… eu não queria ter nascido errado. Eu sou um idiota. Devo ter puxado meu pai. Você não merece mais sofrer.
— Você não nasceu errado. — ela respondeu, num sopro. — Você nasceu pra ser meu filho. Não importa quem seja o pai. Você nasceu de mim assim como Luca. São meus. Os dois — Então ela começou a passar mal, bater mais forte no próprio peito. E o desespero começou a conta de mim.
O “meu” entrou em Jackson como faca. Vi o contorno de um homem se rasgar pelo meio. Ele agarrou a barra do sofá, depois largou, prendeu os dedos no cabelo, puxou, como se pudesse arrancar a cabeça fora. O corpo foi pra frente como se fosse vomitar. Mas o que saiu foi outra coisa: um som rasgado, animal.
— NÃO É JUSTO! — o grito dele estourou minhas têmporas. — NADA É JUSTO! — ele acertou um soco no braço da poltrona — VOCÊ ME QUIS MORTO! DEPOIS ME QUIS VIVO! VOCÊ NÃO OUSE ME DEIXAR AGORA! — tentei empurrar esse tolo.
— Jackson… — minha mãe sussurrou, e a mão dela escorregou do peito, inerte por um segundo que durou tempo demais. — Por favor…
A cabeça dela caiu para o lado.
— MÃE! MÃE! — gritei enquanto a balançava sem retorno.
— Mãe? — ele chamou, primeiro com assombro, depois com urgência. — Mãe?
Eu já estava em cima, dois dedos no pulso, o rosto a centímetros do dela. A pele fria onde não devia. A respiração ruidosa que virou silêncio. O vazio que se instala e não pede licença.
— Chama o médico! — gritei para Derrick no corredor, a voz como sirene. Ouvi homens correndo, rádio crepitando, ordens. Mas eu sabia. Antes do estetoscópio, antes do oxímetro, antes do choque: eu sabia. Ela talvez não abrisse mais os olhos. Tremi tanto que mal consegui segurar ela.
Jackson também soube. Ele começou a balançar o corpo, pra frente e pra trás, numa cadência infantil, os olhos nos dela como se pudesse puxá-la de volta pelo olhar.
— Mãe, volta. — ele sussurrou. — Volta, volta, volta… eu vou parar, ok? Vou te dar paz. Eu juro.
Eu fechei as pálpebras dela com a ponta dos dedos quando percebi que não havia mais pulso. As minhas mãos tremiam. Engoli ferro.
— Jackson… — chamei. — Ela não vai voltar.
O corpo dele foi pra trás, esbarrou no aparador, arrastou a bandeja de prata, os copos caíram, um deles estilhaçou na quina do mármore. Ele deslizou até o chão, sentado primeiro, os olhos arregalados demais para quem não via mais nada. Sangue marcou uma linha torta pelo rosto, desceu para o colarinho, abriu um broche vermelho na camisa.
Fiquei de pé, ofegante, os braços latejando, o zumbido no ouvido indo e vindo como maré. O cheiro de pólvora subiu junto do cheiro doce e metálico que eu já conhecia demais. O rádio ainda gritava ordens no corredor. Derrick parou ao meu lado, braço teso, arma baixa, mas pronta.
Eu me ajoelhei. No fundo nunca quis isso. Como chegamos assim até aqui? Éramos amigos na infância. Ele foi escolhendo caminhos diferentes, mas ainda era meu irmão. E isso pesa. Pra mim, pesa. Mesmo ameaçando nunca fui capaz de atirar pra matar.
Jackson estava sem peso. Era só um menino muito alto desabado numa sala muito grande. A arma escorregou da mão dele e bateu no taco, ficou girando num círculo lento até repousar.
Olhei para um lado: minha mãe, com a cabeça tombada no encosto, a boca entreaberta como quem ia dizer mais uma coisa sobre o que a gente é, mas não deu tempo. Olhei para o outro: meu irmão, calado enfim.
Eu respirei pela boca e deixei o ar sair pelo nariz, devagar, como se pudesse desinflar a noite. Depois me levantei. Endireitei o paletó, passei os dedos pela lapela como meu pai fazia quando queria recuperar a pose antes de anunciar uma sentença.
— Levem-na com respeito. — minha voz saiu baixa, firme — E ele também. — Olhei para dois soldados que me encaravam à porta, esperando ordem para escolher quem valia dignidade. — Os dois. Na mesma hora. Na mesma dignidade. Quem desobedecer, vai morrer. Jackson será enterrado como um Black. Acabou a rivalidade.
Eles assentiram, mudos. Movimentos precisos começaram: cobrir o corpo, preservar o rosto, não arrastar, não tropeçar no que sobrou da vida alheia.
Derrick não disse nada até eu dar dois passos pro hall. A mão dele tocou meu ombro. Eu não afastei.
— Don… — ele falou como quem mede o comprimento de um precipício — Quer que eu chame o padre?
— Chama. — respondi. — Dois. Também alguns pastores, quem você encontrar.
Ele assentiu e saiu.

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