Capítulo 116
Riley Black
Eu escutava a respiração dele perto da minha orelha, cadenciada, segura. Fiquei pensando em como coisas simples podem mudar tanto nossa vida.
Quando voltamos para a areia, ele me enrolou na toalha. Não é do tipo amoroso, mas sempre foi cuidadoso comigo.
Seu olhar descia para a minha barriga e ganhava aquela sombra de ternura que não combina com o rosto de um homem acostumado a dar ordens. Ele tocou.
Depois olhou para o mar para não olhar para mim. — Mas eu percebi que estava tentando se aproximar.
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No fim da manhã, fomos até Willemstad. As casas coloridas da Punda pareciam cenário de filme. Luca andava comigo pela rua como se aquele lugar fosse nosso, a mão dele na minha cintura marcando que eu estava em território seguro, embora seu rosto sério assustasse quem nos olhava.
A ponte flutuante, Queen Emma, abriu de repente e foi deslizando para o lado; eu ri, surpresa, e ele riu junto — um riso raro, que não vinha dos lábios, mas de um músculo dócil que apareceu entre a seriedade.
Almoçamos num restaurante com vista para o canal.
— Você percebeu que passou a manhã inteira sem abrir o celular?
— Percebi. — Pegou a minha mão sobre a mesa. — E percebi que não senti falta.
— Cuidado, hein. Você vai começar a viciar.
— Será? — Ele me encarou por um segundo longo. — Seria um bom vício.
Depois do almoço, fomos andar pelo mercado de flutuantes.
À tarde, ele tinha outro plano. Entramos num barco pequeno, daqueles com cobertura, e seguimos contornando a ilha. A água variava do azul profundo para um verde quase transparente. O vento fazia meu vestido dançar, e Luca estava… quieto. Quieto de um jeito bom, desses em que o silêncio é companhia.
— Você vai me treinar pra atirar? — falei, do nada.
— Vou.
— Mas hoje, não.
Encostei a cabeça no ombro dele.
— O que você sente quando não está trabalhando?
— Que preciso dar instruções.
— Isso não é sentir, Luca.
— Para mim é. — Ele ficou um tempo olhando para a linha do horizonte. — Mas hoje eu sinto outra coisa. Eu sinto… um pouco de paz.
— Luca... Você ainda está sentindo o que aconteceu, não é?
— Um pouco.
— Em que sentido?
— Ah... Minha mãe me avisou que não estava bem de saúde e não prestei atenção aos sinais.
— Não se culpe. Ela te disse um dia antes de tudo acontecer. Você não teve vinte e quatro horas pra pensar nisso.
— É...
— O que foi? Você fala tão pouco. Pode falar comigo. — Ele me olhou. Parecia pensar se respondia ou não.
— É que sinto que se eu soubesse dessa história antes, talvez eu tivesse conseguido mudar o rumo das coisas. Ainda não consigo entender como perdi Jackson assim. E nem estou dizendo da morte. Estou falando que já estava perdido a alguns anos. Talvez minha mãe sempre tivesse razão. Ele era inseguro. Sentia alguma rejeição.
— Não tem como mudar o passado. Você fez o que pôde.
Voltamos para o quarto já de noite, sal em cima da pele, areia nos tornozelos, cansaço bom nas pálpebras. O ar tinha o frescor do ar-condicionado e o quarto, a penumbra das coisas bem guardadas. No aparador, havia uma caixinha que não estava lá de manhã.
— Isso é…
— Abre. — Ele cruzou os braços, como se protegesse a própria vulnerabilidade com o corpo.
Dentro, um colar curto, discreto, com um pingente pequeno em forma de anel entrelaçado. Simples, bonito, uma assinatura silenciosa.
— É nosso? — perguntei, a voz meio embargada de surpresa.
— É seu.
— E nosso. — corrigi, teimosa.
— E do bebê. — Ele cedeu, baixinho. — Eu mandei fazer ontem. Pensei que… — Procurou uma palavra que não é do vocabulário dele. — Pensei que você ia gostar.
— Eu amei. — Segurei o colar contra o peito, por um segundo naquela pose boba de comercial. — Coloca?
Ele veio por trás, afastou meu cabelo, tocou minha nuca com uma reverência que eu nunca vi em outro lugar. O fecho clicou, e eu juro que ouvi alguma coisa se fechar dentro de mim também — um medo, talvez. Quando me virei, ele já estava perto demais.
— Você está feliz? — perguntou, quase sério.
— Estou.
— Então valeu a pena.
— O dia?
— A vida. — Ele deu de ombros, sem drama. Valeu a pena ter te roubado no altar.
Ficamos assim um instante, parados, como quem guarda o momento num cofre interno. E ainda teria uns dias pra até voltar pra casa. A rotina difícil e a nova jornada.

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