Capítulo 118
Rúbia
O medo tem um gosto estranho. Amargo, como se fosse um veneno que se espalha por dentro e corrói tudo, até o que ainda está intacto.
Desde que Derrick apareceu na porta do quarto, dizendo que o chefe tinha mandado a gente sair, meu coração não sossegou. Não é só sobre o jantar. É sobre o exame. Sobre o que vai estar escrito dentro daquele envelope. Se for negativo… eu não sei. Tenho medo de ele desistir do casamento, de me deixar sozinha, e agora eu quero isso. Quero essa vida, por mais torta que ela seja. Ser a mãe da Mia.
A empregada bateu na porta e levou a pequena, dizendo que foi ordem da senhora Black. Fiquei com o peito vazio, como se tivessem arrancado um pedaço de mim, mas era o momento de viver um pouquinho pra mim.
Entrei no banheiro e deixei a água quente cair, tentando relaxar, mas quando saí, me vi no espelho e parei.
Olheiras profundas. Ombros, cintura mais finos. Eu parecia menor, como se os dias me tivessem devorado aos poucos, até minha bunda diminuiu. Suspirei, abrindo o guarda-roupa. Nenhum vestido parecia bom o suficiente. Só o pretinho básico, simples demais para sair à noite.
Derrick deve ter perdido o interesse por mim, nunca mais me procurou como mulher. Só a babá da Mia.
Sentei na cama, desanimada, quando ouvi batidas suaves na porta.
— Posso entrar? — a voz de Riley soou.
Antes que eu respondesse, ela já entrou, com um cabide numa mão e uma sacola na outra.
— Eu soube que vai sair. — sorriu, um sorriso que iluminava a sala inteira. — Vim te ajudar.
Estendeu o cabide: um vestido dourado, justo, curto, sofisticado.
— Esse já não cabe mais em mim. Com a barriga crescendo vai apertar. É seu, presente.
Segurei o tecido entre os dedos, sem acreditar.
— Riley… eu não sei o que dizer. É lindo.
— Só diga que gostou e será suficiente. — piscou.
Da sacola, tirou maquiagens, secador, cremes. Em pouco tempo, transformou meu quarto num pequeno salão de beleza improvisado.
— Vamos enlouquecer aquele Consigliere com seu glamour. É uma mulher linda e também quero a Mia em boas mãos.
— Obrigada senhora.
Sentei diante do espelho e deixei ela cuidar de mim. Os dedos firmes puxavam e secavam meu cabelo, me mostrando um reflexo que eu já não reconhecia. Aos poucos, a mulher abatida deu lugar a outra. Com brilho no olhar, com vida na pele. A maquiagem deixou meu rosto mais jovem.
Quando terminei de me arrumar, Riley me olhou de cima a baixo e sorriu satisfeita.
— Agora sim. Está maravilhosa. Boa sorte hoje, Rúbia.
— A senhora é maravilhosa. Obrigada novamente.
Desci as escadas com o coração batendo alto. E quando Derrick me viu, o mundo pareceu parar por um segundo.
Os olhos dele mudaram. Não era só desejo, nem só aprovação. Era outra coisa — como se estivesse me vendo pela primeira vez. Levantei o queixo, sem saber o que fazer, mas ele tomou a dianteira.
Aproximou-se de repente, agarrou minha cintura e me puxou contra ele quando percebeu dois soldados olhando demais.
— Estão querendo perder os olhos? — rosnou, e eu senti a tensão dele contra meu corpo.
Os soldados saíram de fininho e eu sorri.
— Bobo.
Foi então que tirou uma caixinha pequena do bolso. Abriu ali mesmo, diante de todos os olhares curiosos do restaurante.
— Rúbia… casa comigo.
O ar sumiu dos meus pulmões. O tempo parou.
Eu sabia do casamento, mas não esperava que seria assim, com pedido de casamento de verdade e nessa mesma noite.
Coloquei a mão no peito, respirei fundo. Várias pessoas olhavam pra mim e pra ele como se também esperassem resposta.
E eu só consegui sussurrar:
— Sim.
Ele sorriu pela primeira vez naquela noite, colocou o anel no meu dedo e, sem se importar com quem assistia, me puxou para um beijo que roubou o chão debaixo dos meus pés.
Me senti bem, me senti feliz
Naquele instante, o medo se calou.
Até que uma frase me fez virar pra trás ao parar de beija-lo.
— Casar? Você vai é casar comigo. Agora te encontrei Rúbia. Pensou que poderia escapar de mim?
Era meu ex.

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