Capítulo 126
Riley Black
Abri a porta devagar, e o silêncio do corredor pareceu escorrer junto com a sombra que se projetou no tapete. Era um senhor grisalho, com rugas profundas que desciam como cicatrizes mal curadas. Suas roupas pareciam caras à primeira vista — o tecido tinha brilho, a bengala era de madeira nobre, os sapatos bem engraxados. Mas o conjunto não se encaixava. As cores brigavam entre si, a gravata desalinhada, a camisa justa demais no colarinho. Um homem que queria ostentar riqueza, mas que não sabia usar o traje.
Ele entrou mancando levemente, apoiando-se na bengala, e os olhos pequenos percorreram a sala com um ar de avaliação. Não parecia surpreso nem tímido. Pelo contrário: olhava tudo como se já tivesse estado ali, como se conhecesse o valor de cada móvel.
— Senhora Black. — Sua voz saiu baixa, rouca, mas firme. — Vim receber meu pagamento.
A frase caiu como chumbo. Eu apenas ergui o queixo, mantendo as mãos no teclado, e esperei que ele continuasse.
— Pagamento? — perguntei, fingindo confusão. — Não sei do que está falando.
Ele riu curto, como se esperasse exatamente essa reação.
— Sempre fingem que não sabem. Mas eu sei que a Amélia deixou de respirar e que o dinheiro pode parar de vir. E eu não vim aqui perder meu tempo.
O coração acelerou, mas mantive o rosto sereno. Puxei o ar devagar e apoiei os cotovelos na mesa, estudando-o.
— Explique. Quem é você? — perguntei, a voz baixa, carregada de autoridade.
Ele inclinou a cabeça, observando-me com divertimento.
— Quem sou eu? Digamos que eu seja a peça que mantém a família Black sem escândalos na primeira página dos jornais. Eu sou quem a Amélia pagava para manter a boca fechada.
A cada palavra, a calma forçada que ele exibia me provocava. Eu quis responder de imediato, mas mordi a língua. Melhor deixá-lo falar. Ele deve ter assombrado a vida de Amélia todo esse tempo.
— E do que exatamente você está falando? — perguntei, quase doce.
Ele deu um passo mais perto, arrastando a bengala no carpete.
— Da verdade, senhora. A verdade que vale mais do que qualquer herança. A verdade de que Jackson não era filho dos Black. — Sorriu, mostrando dentes amarelados. — Ele era "meu" filho.
Meu estômago deu um nó. O ar ficou pesado. Vi Luca empalidecer atrás do velho e até abaixar a arma. Eu já ouvi muitas insinuações sobre Jackson, mas ouvir da boca de um velho que dizia ser seu pai… e ainda com aquela arrogância… Era mais do que perturbador. Até porque, Amélia disse que ele estava morto.
— Você está dizendo… — comecei.
— Estou afirmando. — Ele me cortou. — Sou o pai de Jackson. Já sei que o garoto morreu, e que a Amélia também. Mas não estou de luto, não. Azar se morreram antes. Só quero o que é meu. Todos esses anos eu venho recebendo para encobrir a merda que seria se o mundo descobrisse. Já imaginou se eu jogasse tudo no ventilador?
Ele bateu a bengala no chão, como se quisesse sublinhar suas palavras.
— E por que só agora resolveu aparecer pessoalmente? — perguntei, estreitando os olhos.
O homem riu de novo, mas agora mais alto, quase debochado.
— Porque todos esses anos eles acreditaram que eu estava morto. Amélia e o marido dela achavam que eu tinha levado uns tiros, que eu tinha desaparecido da face da terra. Mas você acha mesmo que eu entregaria a cabeça de bandeja ao Don daquela época? Um homem poderoso como ele?
Ele fez uma pausa dramática, observando minha reação. Eu não dei o gosto de piscar.
— Claro que não. — Ele prosseguiu, com gosto. — Arrumei uma mula. Um idiota que tinha muitos filhos para sustentar. Ele foi no meu lugar. Se entregou. E morreu. A família dele ficou com o dinheiro que eu deixei. E eu fiquei com a minha pele intacta. — Os olhos brilharam com orgulho. — Foi perfeito. Todos esses anos eles viveram acreditando que o verdadeiro abusador, o verdadeiro estuprador da Amélia, estava morto. Mas aqui estou eu. Vivo.
Que nojo...
Um riso gutural escapou de sua garganta. O som me fez gelar a espinha. Luca se moveu e acho que o velho percebeu.
Antes que eu pudesse reagir, ele tirou algo do bolso. O brilho metálico não deixou dúvidas. Uma arma pequena, velha, mas funcional. Ele levantou devagar, firme, e apontou direto para a minha cabeça.
O velho tentou se arrastar, gemendo, mas Luca não deu espaço. Com um chute preciso, esmagou o joelho dele. O estalo ecoou alto, e o grito do homem preencheu a sala, rasgado de dor.
— Você vai pagar por cada segundo! — Luca rugiu, ofegante, os olhos queimando em fúria. — Por cada lágrima da minha mãe, por cada mentira, por cada sombra que jogou sobre a minha família!
O soldado manteve-se na porta, firme, como uma sombra silenciosa. Eu, paralisada, observava Luca em sua forma mais pura: não o Don calculista, não o homem que fala baixo e ameaça com gestos sutis. Ali estava o predador sem rédeas.
Luca segurou o colarinho do velho e o ergueu meio metro do chão, mesmo com o corpo dele já mole de dor.
— Você se achava esperto, não é? Escondeu-se atrás de dinheiro, fez um pobre coitado morrer no seu lugar. E ainda teve a ousadia de aparecer aqui, no meu território, encostar uma arma na minha mulher? — cuspiu as palavras, o hálito quente de raiva. — Eu devia arrancar sua língua agora mesmo.
O velho tremia, mas ainda tentou provocar:
— Se me matar, todos vão saber…
— Cale a boca! — Luca berrou, e o som fez até o soldado endireitar a postura. — Quem manda aqui sou eu! Quem escreve a história sou eu! E a sua acaba hoje.
Numa cotovelada ele o desmaiou.
— Vamos tirá-lo da empresa. Essa conversa vai terminar lá no reduto. Esse vai pagar pelo que fez.
— E se ele tiver algum soldado ou alguém que vá espalhar essa merda? — perguntei.
— Eu não me importo. É um tipo de problema que vou resolver depois, mas esse infeliz morre hoje. E não será só um tiro não. Sei exatamente o que fazer com ele.
— Tudo bem. — falei.
— Vai pra casa. Vou enviar dois com você. — Assenti.

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