Capítulo 127
Riley Black
Fiquei sozinha na sala depois que fecharam a porta do elevador. O som dos passos de Luca sumiu pela escadaria de serviço como se fosse uma maré que levava embora tudo o que eu queria esquecer. O velho estava semiconsciente no braço do segurança — o levariam como se tivesse desmaiado no escritório, perante os funcionários.
Comecei a pensar. Esse velho disse que se algo acontecesse com ele, alguém faria alguma coisa. Não posso deixar passar.
Peguei o celular antes mesmo de me sentar. Disquei para Derrick com a afobação de quem precisa fazer as coisas acontecer. Quando ele atendeu, a voz dele veio arrastada, meio sonolenta.
— Onde você está? — perguntei sem cerimônia.
— Dona Riley? — ele demorou um segundo, tentando achar um tom profissional que não tinha. — Estou em casa, bom, na minha casa. O chefe me deixou folga hoje, senhora. Por quê?
Lembrei que Luca havia mandado ele e Rúbia para fazer os benditos exames.
— Vou precisar de uma exceção. Venha para a empresa.
— Só vou deixar a Rúbia na sua casa com a Mia e já vou.
— Não dá tempo. Traga a Rúbia também. Preciso resolver alguns assuntos com um filho da puta.
Houve um silêncio curto, seguido por:
— Senhora, não tem problema? A senhora tá grávida...
— Eu já disse que sei me cuidar — cortei. — Traga ela. E rápido.
— Tá bem, senhora. Eu vou já. — Ele fez menção de tentar negociar, mas eu nem deixei.
Quando desliguei, senti o corpo inteiro vibrar, pensando em como faria isso. Aquelas palavras do velho — “Sou o pai de Jackson” — iam rodar como uma lâmina se alguém mais visse ou escutasse. Podia ser verdade, podia ser mentira. Não importava. Histórias viram munição. E munição tende a voar rápido.
Pesquisei “Erasmo Fiore” no computador do escritório antes de sairmos — dois endereços apareceram no histórico que a secretária deixara aberto.
Derrick chegou em quinze minutos. Eu já tinha descido do prédio. Ele estava discreto, olhar preocupado. Atrás dele, a pequena figura de Rúbia saltou do banco de trás. Ela usava uma roupa limpa, cabelo preso, expressão mais assustada do que eu esperava.
— Derrick é o seguinte: precisamos ir a dois endereços. Descobrimos que o pai do Jackson está vivo. Ele veio ameaçar e Luca o levou para o reduto. Só que tem mais gente por trás disso. Vamos descobrir quem é.
— Senhora. O chefe sabe? Ele... — engoliu.
— Não — respondi. — E se souber, vou saber que foi você que contou. E você não me conhece: mas eu sou vingativa com quem me trai.
Ele respirou fundo. Rúbia me olhou como se eu tivesse acabado de propor um crime.
— Eu fico com a senhora — disse ela, com aquela mistura de medo e coragem que só quem não tem nada a perder sabe ter.
Sorri, pequeno e cortante.
— Ótimo. Então vai ser a Rúbia a me ajudar. E se algo der errado, você grita. Entendeu?
— Tá. — Foi tudo que ela conseguiu falar, mas já caminhava em direção à porta do carro como se fosse pra um baile.
O primeiro endereço estava com uma placa de venda; o portão enferrujado, ninguém na janela. O outro ficava a algumas quadras, em um quarteirão de prédios baixos, jardins apertados entre eles.
— Primeiro está vazio — disse eu, olhando pelo retrovisor. — Vamos no segundo agora.
Estacionamos bem pertinho. Dei a Rúbia instruções curtas, frias.
Antes que eu pudesse mover um músculo, a mão dele se esticou e agarrando o braço de Rúbia puxou-a para dentro da casa com força. O corpo dela bateu no batente; o som ecoou fino. Vi o reflexo do movimento no vidro do carro, senti o estômago apertar.
— Vou decidir o que faço com você... — o homem murmurou no ouvido dela, sombra sobre a pele. Mas deu pra ouvir.
Foi o sinal. Derrick não hesitou. Ele saiu do carro num passo decidido, arma já empunhada. Apontou para a perna do homem e atirou. O som reverberou curto, seco. O homem caiu, uivando de dor, a mão buscando a boca da ferida. Não havia lugar para piedade ali: a ameaça havia ultrapassado a linha.
Derrick avançou, deu uma sequência de golpes, calculados, que deixaram o homem desacordado, então o matou com um tiro. Ele bateu no peito, conferiu se o homem ainda tentava se mexer, e, quando teve certeza, puxou-o pelo colarinho até o portão. Com movimentos firmes e sem cerimônia abriu o porta-malas do carro e o empurrou lá dentro. O volume do corpo fazia o metal ranger.
— Derr… — sussurrei uma ordem curta. — Cobre tudo. Não quero rastro.
Ele assentiu, a face dura.
Enquanto Derrick recuava para o lado do carro, outros passos vieram pela rua: dois homens surgiram correndo, e com eles uma mulher — cabelo curto, olhar esganiçado, como quem chega com pressa e intenção.
Os homens se plantaram como se quisessem gritar, mas não deram tempo. Um deles sacou algo — talvez uma ferramenta, talvez uma arma improvisada — e, num segundo, Derrick já estava em cima, seguro, profissional. Não houve diálogo prolongado: socos, quedas, um estrondo abafado. A mulher tentou correr mas um dos soldados que mandei ficar de vigia na esquina apareceu no momento certo, interceptando-a com tiros. Em menos de um minuto a rua estava silenciosa, recheada de corpos que respiravam pouco.
A mulher foi para o porta malas. O resto Derrick ateou fogo depois de enfiar num carro velho nos fundos da propriedade.
— E agora, senhora? — Derrick perguntou, limpando a mão na calça, olhos buscando meu aval.
— Vamos para o reduto. — respondi — Levar o presente para o chefe.
— Sim, senhora. — Ele fechou o porta-malas, deu uma última olhada ao redor, certificando-se de que ninguém os observava.
No banco de trás, Rúbia começou a chorar, baixinho. Eu não lhe ofereci consolo. Não naquele momento. Havia coisas piores que as lágrimas: a exposição. Se aquilo vazasse, não haveria volta. Se Luca quiséssemos manter o controle, teríamos que mostrar que sabíamos lidar com as bombas antes que elas explodissem.
— Segura — disse apenas. — E aprende a trabalhar isso. Hoje você aprendeu. Amanhã pode salvar alguém.

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