Capítulo 132
Rúbia
Eu estava no banco do carona com o vidro um pouco aberto, o ar da noite entrando pesado e úmido, quando a porta do galpão foi fechada. Derrick estava lá para “terminar” o assunto com o pai do Jackson.
Apoiei a cabeça no encosto, as mãos no colo, e tentei focar nos pingos de chuva que começavam a riscar o para-brisa.
Quando Derrick apareceu, foi como se uma sombra ganhasse contorno. Ele caminhou até o carro com a postura de sempre — ombros largos, queixo travado —, abriu a porta e entrou sem olhar muito.
— Acabou — disse, enxugando as mãos numa toalha de papel que tirou do bolso do casaco — Não vai incomodar mais.
— Vamos ver a Mia. Estou preocupada — falei baixinho.
— É, mas como ainda é minha folga, vamos buscar ela e passar a noite na nossa casa.
— Está bem.
Os olhos dele, que até então estavam presos em alguma lembrança áspera, desviaram para mim. Houve um brilho contido. Um alívio, talvez.
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Logo que entrei na casa dos patrões, ouvi o som que desmonta qualquer armadura minha: um resmunguinho manhoso, aquele “ããã” que a Mia faz quando está quase dormindo e lembra que preferia meu colo.
Ela estava deitada no berço portátil da sala, uma manta creme cobrindo metade do corpinho, a outra metade com o pé para fora — a meinha de nuvem pendurada por um triz no dedão. O cabelo dela, tom castanho escuro com umas teimosias claras, estava grudado na testa de tão quente e delicioso. Quando me viu, abriu a boca num sorriso sem dente, de puro leite, e esticou os braços desengonçados que têm a minha vida inteira pendurada neles.
— Oi, minha lindinha… — eu sussurrei, pegando-a no colo, encaixando o bumbum na dobra do meu braço, a outra mão sustentando a cabeça como se fosse um cálice. — A mamãe veio.
Mia respondeu com um gritinho feliz que virou um “dadadá… mmmm…”, como se explicasse a própria alegria. Derrick se aproximou devagar. A mão grande passou suave na barriga dela por cima do macacão de algodão, e ele sorriu daquele jeito mínimo, só um canto de lábio que o mundo quase não percebe.
— Como ela tá? — perguntei, recolhendo fraldas e uma bolsinha com as coisas dela e o kit de emergência.
— Está bem, mas acho que sentiu sua falta — respondeu a moça que cuidou dela, e a Mia, como se entendesse tudo, agarrou o cordão do casaco do Derrick com firmeza.
Derrick pegou a mochila da Mia, conferiu mamadeiras, potinhos de fruta, uma girafinha de borracha. E me olhou como se estivesse checando uma lista invisível.
— Faltou alguma coisa? — ele perguntou, sério, mas com aquela doçura que só eu conheço.
— Só a gente — sorri. — E a chupeta da estrela… tá aí?
Ele revirou a mochila com precisão e achou a maldita estrela. Mia pegou, mordeu, e fez um som de conquista que me fez rir.
— Pronto — Derrick decretou.
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A casa que Luca nos deu é um exagero de horizonte.
Mia se esparramou no meu colo com um bocejo sonoro quando entramos. Derrick foi rápido: trancou a porta, acionou dois painéis no hall que eu nem sabia que existiam, e começou o reconhecimento como se a casa fosse um território novo no mapa dele. Eu sentei num tapete macio que ainda tinha cheiro de novo e descalcei a bebê.
— Tá ouvindo, Mia? — murmurei, mexendo no dedinho fofo do pé dela. — A casa faz “uuuhh” quando a gente fala. Se você gritar “papai”, ela devolve “papai”.
Derrick ficou parado na porta por um instante, Mia deitada no seu antebraço, mãozinha agarrada na gola da camiseta dele. Eu adoro quando ele fica assim: grande demais para o mundo, delicado demais para o próprio tamanho.
— Vai faltar coisa — ele disse, passeando os olhos pelo quarto. — Manta extra, babá eletrônica com duas câmeras, protetor de berço sem laço… Vou ajustar a altura do colchão do berço — ele falou, passando a bebê para mim. — Ela está esperta demais para ficar nesse nível. Daqui a pouco aprende a sentar e tenta se jogar.
— Já tenta — eu ri. — Ela acha que voa.
— Ela voa — ele respondeu, pegando uma chave Allen da gaveta que eu nem sabia existir. — Mas só quando eu estiver segurando.
Foi uma dança: ele ajoelhado desmontando e remontando, eu sentada na poltrona com a Mia no colo, oferecendo um brinquedinho barulhento que ela mordeu com raiva de quem está com os sisos imaginários nascendo. Quando ela começou a reclamar, eu levantei, encostei a testa dela na minha e fiz um “shhh” longo. Derrick parou o que estava fazendo na hora — é automático nele, como o gatilho para o sagrado.
— Quer que eu faça a mamadeira? — perguntou, já indo.
— Quero — respondi sem cerimônia. — Água morna, três medidas rasas.
— Certo.
Fiquei no quarto com a Mia conversando bobagens:
— E essa casa, minha filha? O que você acha? Dá para engatinhar daqui até a cozinha e a mamãe perde você no meio do caminho. A gente vai ter que colocar placas: “Mia, é por aqui.”
Ela me olhava com a atenção mais importante do mundo, a língua ligeiramente de fora, como se a infância tivesse inventado um novo idioma e só eu falasse. Encostou a mão no meu rosto com os dedos molhados e apertou. Eu recebi aquele carinho de borboleta como quem recebe medalha.
— Será que um dia você vai mesmo me chamar de mamãe? — perguntei baixinho, mesmo sabendo que não teria uma resposta.

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