Capítulo 133
Rúbia
Derrick voltou com a mamadeira, testando o leite no próprio pulso, concentrado. Eu peguei, ofereci. Mia aceitou com a pressa de quem descobriu o sentido da vida todo dia. Derrick ficou em pé, por cima de nós, olhando com um orgulho que não tem nome.
— Você quer segurar? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Quero — ele admitiu, sentando na beirada da poltrona. — Mas eu gosto de ver você assim.
— Assim como? — provoquei, inclinando a mamadeira para não entrar ar.
— Cuidando dela como filha.
— Você também cuidou dela assim que a viu. Eu me lembro.
— E pensar que foi por pouco que a encontramos. Se não fosse a senhora Riley... — Balançou a cabeça.
— Não pense mais nisso.
Quando a mamadeira terminou, eu levantei para colocar para arrotar. Botei a fralda no meu ombro, apoiei as costinhas dela com a mão, e dei tapinhas de leve. Derrick acompanhava o ritmo com o dedo, subindo e descendo como maestro bobo.
Colocamos a Mia no berço. Ela rolou de lado, abraçou a girafinha e fez um som baixinho que me partiu em mil pedaços bons. Derrick aumentou um ponto a luz de teto, fechou a cortina mais pesada, e programou no celular um ruído branco que parecia chuva mansa em telhado antigo.
— Vou fazer um tour pela casa, ver pontos cegos das câmeras — ele disse, entre o cuidado e o hábito. — Qualquer coisa, grita.
— Vai ficar tudo bem.
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No andar de baixo, a campainha tocou com o ding-dong de filme — as compras.
Derrick trouxe, então comecei a organizar.
No meio do processo, a Mia deu um gritinho no andar de cima. Não era choro, era o “Ei, lembrei que existo!” Derrick congelou por um segundo. O corpo todo dele virou ouvido. Eu fiz um gesto com a cabeça: “vou lá”. E ele: “vamos”. Subimos juntos, meio no passo, meio correndo.
Mia estava em pé no berço, coisa que a gente sabia que ela não devia ter aprendido ainda, segurando na grade com as duas mãos, bochecha amassada contra a madeira. Quando nos viu, deu aquele sorriso que abre sol no estômago.
— Não acredito — eu ri, levando a mão à boca. — Ela vai escalar a parede daqui a pouco.
— Não vai — Derrick disse, já abaixando ainda mais o colchão do berço, mãos rápidas. — Aqui quem escala sou eu.
— Ela deveria estar dormindo, essa fofinha...
— Acho que não quer.
Tiramos ela do berço para gastar energia, porque decidir dormir depois de descobrir que sabe ficar em pé é pedir demais. Colocamos um tapetinho de espuma na sala e espalhamos alguns brinquedos. Mia escolheu não brincar com nenhum — óbvio —, preferiu a caixa de papelão do delivery, que se tornou navio, casa e tambor em cinco minutos. Batia com a palma da mão no papelão e ria da acústica, o som seco virando piada.
— Capitã Mia — Derrick anunciou, agachado, aproximando o rosto. — Qual sua ordem?
Ela respondeu com um “dadadá!” firme, e ele levou a mão à testa, como um soldado: “Sim, senhora.” Eu ria sem fazer barulho, porque se eu gargalho alto demais, a Mia entra no modo “show” e a gente não chama mais o sono nem com reza.
Derrick aproveitou para montar o cercadinho no canto. A mão dele mostra uma delicadeza que a rua não permite. Ele confere a pressão das travas, puxa duas vezes, confere de novo. E, de vez em quando, olha para mim como se estivesse pedindo nota. Eu dou sempre dez com os olhos.
— Você parece um pai — eu disse, deixando escapar, simples.
Ele parou. O silêncio que veio não foi de desconforto. Foi de impacto. Ele baixou a cabeça por um instante e voltou a erguê-la devagar, como quem traz algo de um fundo fundo.
— Eu sou — ele respondeu, sem esforço. — Com você, eu sou.
Mia espirrou. Aquele espirro que começa no dedão do pé e explode no nariz com som de estrelinhas. Olhou para nós com cara ofendida, como se o próprio espirro tivesse sido uma falta de respeito, e depois riu de novo. Eu peguei um lencinho, limpei com todo o cuidado do mundo, e ela tentou comer o lencinho. Luta diária.
A campainha tocou outra vez.
Pizza. Eu ergui a sobrancelha para o Derrick.
— Grupo alimentar completo — ele reafirmou, levantando-se.
— A gente consegue.
Vi o sofá espaçoso na sala e sentei. Derrick sorriu e veio também.
— Bem-vinda à casa — Derrick disse, depois de alguns minutos, como se batizasse a noite.
— Bem-vindo à família — respondi, encostando o pé no dele. — A gente é engraçado, mas funciona.
Ele passou a mão na minha perna de leve, um gesto que pede licença e dá abrigo ao mesmo tempo.
— Funciona porque você e a Mia riem — ele disse.
— E porque você finge que é durão — acrescentei.
— Eu sou durão — ele protestou, indignado de mentira.
— É, claro. Durão que testa temperatura de mamadeira no próprio pulso e canta canção inventada.
Ele tentou sustentar a cara séria e falhou. Eu adoro quando ele falha nisso.
— Dorme comigo aqui hoje? — perguntei, sabendo que ele ia dizer sim, mas querendo ouvir.
— Sempre — ele respondeu sem pensar, como quem assinou algo há muito tempo. — Já sabe qual é o nosso quarto.
A casa respirou junto, no ritmo da nossa quietude. Lá fora, a cidade girava com seus barulhos, seus riscos. Aqui dentro, a gente montava a coreografia nova: mamadeiras, risadinhas, compras no aplicativo, cercadinho no canto, pizza de grupo alimentar, música inventada. Um mosaico bobo que, no nosso mundo de aço, vira obra-prima.
Antes de dormir, subi só mais uma vez para espiar a Mia. Dei um passo, dois, e parei na porta: ela tinha soltado a girafinha e levantado a mão no ar, como se estivesse segurando um sonho. O peito dela subia e descia, compasso perfeito.
— Obrigada — eu sussurrei, para ninguém e para tudo.
Quando voltei, Derrick já estava deitado de lado, me esperando, o braço aberto. Entrei no encaixe e senti o cheiro dele, o peso bom, a promessa muda. A casa imensa nos envolveu como casaco grande. E eu dormi com a certeza mais rara: o mundo pode ser difícil, mas hoje, aqui, a nossa família funcionou. E amanhã… a gente tenta de novo, juntos.

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