Capítulo 141
Riley Black
Fiquei esperando um tempo que me pareceu uma eternidade. O relógio da sala marcava minutos que batiam como pequenos martelos no meu pensamento: cada segundo era um enigma novo, um medo que se formava. Luca demorava. No começo imaginei que fosse só trânsito. Mas a demora foi crescendo dentro de mim, abrindo espaços para pensamentos inconvenientes — e, com eles, a imagem de Tamy sorrindo com aquela naturalidade de gente que acha que pode tudo.
Fechei a porta do armário de louças duas vezes e, em seguida, deixei as mãos caírem incertas ao lado do corpo. O bebê deu uma pequena pontada, como um lembrete de que havia outra vida ali dentro que precisava mais de calma do que eu conseguia oferecer. Respirei fundo, tentando empurrar a inquietação para longe. Não funcionou.
Lembrei de cada palavra de Tamy, do tom venenoso, do prazer que ela parecia sentir em tocar o que me era mais querido. A raiva subiu como se fosse fogo, mas junto com ela veio um fio fino de dúvida — e, pior, o medo de que aquilo não fosse apenas uma imprudência isolada. Tinha algo de organizado na forma como tudo aconteceu: as imagens, a facilidade em obtê-las, a presença dela no lugar certo com o sorriso certo. Não confiava nela. Nunca confiei.
Ele entrou finalmente, a expressão pesada que eu já sabia ler sem esforço: olhos duros, mandíbula cerrada, o cabelo bagunçado como se tivesse passado as mãos nele muitas vezes num intervalo curto. A camisa amarrotada denunciava pressa. Dentro da pressa vinha aquele cheiro dele — couro, fumaça, algo que era só dele e que, de algum modo, sempre me acalmava.
— O que houve, Luca? — perguntei, tentando que a voz não traísse tudo o que eu sentia.
— Estou desconfiado de algumas coisas, mas não consigo provar. — Ele falou baixo, como quem pesa cada sílaba. Logo depois, um rumor de movimento, e dois soldados passaram carregando um corpo coberto por um lençol pesado.
Meus dedos apertaram a barra do vestido. Vi o rosto de Luca mudar por uma fração de segundo.
— Era o responsável pelas câmeras. Descobri que forneceu as imagens internas pra Tamyres. Ela o seduziu. Mas agora viu o que não era da conta dela. — Ele disse, seco.
O frio me percorreu. A imagem do corpo passou rápido pela minha cabeça e, por um instante, imaginei que ele tinha feito o que era preciso.
— Então foi isso. Você a matou também? — soltei, antes de medir as consequências. A pergunta saiu em tom irônico, tentando esconder o pânico.
Ele me olhou, um brilho estranho no canto do olho, e suspirou, como se explicasse algo que não precisava ser dito.
— Não. Não tenho provas que tenha sido por ordem de alguém. A princípio foi só ciúmes de você, mas não se preocupe, já coloquei ela no seu lugar.
"Não matou."
Não gostei da expressão com que disse "coloquei ela no seu lugar". Ele deveria ter matado aquela víbora.
— Eu não gosto que vá assim na casa dessa mulher. — falei, tentando controlar o tremor na voz. — É só pra dar motivos pra ela se achar.
— Fica tranquila. Ela não vai mais se intrometer em nada. — Ele respondeu e segurou minha mão com aquela firmeza que me ancorava.
A seguir, fez-se um silêncio curto, como depois de uma tempestade. Luca me olhou por um instante e disse:
— Não faremos mais nada hoje no trabalho. O que quer fazer?
Aquelas palavras eram um convite para que eu escolhesse um porto. Meu coração ainda batia acelerado, como se a notícia e o susto tivessem deixado marcas. Ele, então, pegou minha mão e, sem muita cerimônia, disse:
— Você acha que é menina ou menino? — ele sussurrou, como quem lança uma pedra numa água calma para ver as ondas que surgem.
— Eu... — respondi, pensando nos nomes que uma vez brinquei por brincadeira e que agora tomavam forma. — Eu sinto que é menino.
Luca sorriu, um reflexo curto e imperceptível.
— Eu também acho que é menino. Meu pai dizia que sente no cheiro. — Ele fez um gesto dramático, e eu ri baixinho.
Começamos um jogo de possibilidades. Falamos de nomes como quem escreve uma lista secreta: ele sugeriu Henry, eu rebati com Theodore; ele falou de um nome forte, eu trouxe um nome suave. Entre uma proposta e outra, o tema se voltou para coisas mais práticas — quem ficaria olhando a casa quando eu precisasse descansar, quem poderia nos ajudar com a decoração do quartinho, as coisas necessárias. A conversa foi se enrolando em cuidados: fraldas, médicos, o toque do dia a dia. E, no miolo dessa logística, havia pequenos gestos de intimidade: ele ajeitando minha blusa, eu afagando a mão dele, risos contidos quando pensávamos em nomes engraçados.
O bebê deu outro mexida — mais evidente desta vez — e um calor subiu do peito até a garganta. Luca prendeu o ar, e eu senti a mão dele apertar a minha barriga por um instante, como quem quer que a vida ali dentro saiba que já é defendida.
— Acho que ouviu nosso plano de nomes e não gostou de nenhum dos dois — disse ele, rindo baixinho.
— Talvez prefira nos escolher — respondi. — Ou nos obrigar a concordar.
A noite fechou em volta da gente com a gentileza de quem respeita um momento sagrado. As luzes no jardim piscavam como lembranças de que ainda havia pequenas alegrias para nós. Por um tempo, cada preocupação pareceu se tornar menor, encolhida frente ao movimento tênue que me lembrava do milagre ali dentro.
Quando voltamos para dentro, de mãos dadas e passos mais lentos, senti que o medo ainda morava em mim — e que Luca também carregava o seu. Mas havia algo novo: a certeza de que, aconteça o que acontecer lá fora, no nosso pequeno universo haveria resistência. Haveria chocolate, nomes discutidos sob a lua, mãos firmes prontas para proteger. E, enquanto a barriga pousava entre nossos mundos, entendi que, apesar das sombras que nos rondavam, nosso lugar era aquele: juntos, esperando.

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