Capítulo 143
Riley Black
Dois meses passaram.
Eu me olhei no espelho antes de descer — o vestido de tricô, macio no corpo, a barriga de quase seis meses já anunciando que não estou mais sozinha quando respiro. Toquei a pele com a ponta dos dedos e sorri por um segundo. Depois lembrei da noite anterior e o sorriso murchou.
Luca estava no escritório, como sempre, antes do sol cruzar a janela. O casaco pendurado na cadeira, a camisa aberta no pulso, a veia no antebraço saltada enquanto ele escrevia alguma coisa com a letra firme que todo mundo obedece. Eu fiquei de pé na porta, silenciosa, até ele perceber meu cheiro. Ele sempre percebe.
— Você acordou cedo — disse, sem levantar a cabeça.
— Ou não dormi — respondi, cruzando os braços. — O bebê gosta de me lembrar que manda. Adora um agito.
Ele ergueu os olhos e, por um instante, eu vi a versão dele que só eu conheço: a que fica mole no olhar quando fala do que é dele. Aproximou-se, passou a mão pelo meu cabelo e encostou os lábios na minha boca. Quente. Rápido demais.
— Hoje eu viajo.
Eu já sabia. O e-mail piscou na madrugada, e eu fingi que não vi.
— Não precisa ir — falei baixo, quase num pedido que eu sabia que ele ia negar. — Eu cuido disso. Você me deixou responsável pela empresa.
— Não. É arriscado. Você está grávida, Riley. Eu não vou te colocar em avião, hotel, auditório cheio. Não agora.
— Eu não sou de vidro.
— Pra mim é — cortou. E virou as costas, como quem encerra o assunto. Luca sempre acha que “fim” é uma palavra aceitável no meio de frases que me acendem.
Cruzei o escritório, peguei a pasta que eu mesma organizei, empurrei de leve contra o peito dele.
— Os contratos. As ressalvas estão marcadas. E a cláusula da fundação.
— Eu vi — respondeu, seco. Ele sempre vê tudo.
Fiquei parada no lado oposto da mesa. Ele passou as páginas com a atenção de quem desmonta uma arma. Eu acompanhava os dedos, lembrando do que eles fazem comigo quando não estão em papel. Quando ele terminou, o celular vibrou. Eu ia só entregar na mão dele, como sempre, mas a tela acendeu no meu rosto antes de eu dar tempo de desviar. “Tamyres S.”. Uma prévia de e-mail: Itinerário do Conselho — ajustes de última hora.
Não é que eu não soubesse que ela estaria lá porque trabalha no projeto. É que ver o nome dela colado ao dele tem um gosto específico de raiva.
— Tamy vai também — observei, fazendo parecer informação.
— Vai — ele respondeu, sem levantar os olhos para medir o efeito. — Representa uma empresa parceira. Vai sentar à mesa e fazer barulho. Como sempre.
— Que lindo — soltei, o sorriso torto. — Vocês combinam no “barulho”.
Ele suspirou, e eu reconheci aquele som: impaciência disciplinada.
— Não começa, Riley.
— Quem começou foi você. Eu só estou de espectadora, já que grávidas não viajam.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Roubada no altar pelo chefe da Máfia