Capítulo 146
Riley Black
Eu acordei com o coração batendo estranho, como se algo já estivesse errado antes do dia começar. Por pouco não ouvi o barulho do helicóptero — mas sabia que ele tinha voltado. Senti quando a porta se abriu e o cheiro de roupa suada e pólvora entrou no corredor. Ele veio até mim com cara fechada, a roupa marcada, o sapato ainda com pó da noite. É claro que explodi.
— Está assim por causa da Tamy? — disse ele, e tentou logo emendar: — Calma, eu explico.
— Explique o quê? Que andou perto daquela mulher? Que postaram foto dela ao seu lado e eu virei chacota?
— Riley respira, docinho. — tentou se aproximar, me afastei. Continuei falando tudo que estava atravessado.
— Vai dizer que alguém deixou uma gravata no quarto como piada suja? Ou que nada disso existiu? Nem havia gravata. Que a internet já tinha condenado a gente? Eu não quero ouvir explicações. Queria que você tivesse me protegido, ter ficado ao meu lado de verdade. Nem desmentiu aquelas putas falando de vocês dois por mim.
— Essas coisas eu não vi, mas considere tudo apagado. Vou resolver hoje mesmo.
— Não fala — cortei, antes que ele abrisse a boca. — Não quero ouvir nada. Toda essa humilhação — faço um gesto com as mãos — todo mundo rindo, comentando. A gravata no seu quarto? Como pode?
Ele me olhou por um segundo, como se pesasse se me dizia tudo. Aí soltou um suspiro pesado e tirou o telefone do bolso. A mão tremia, e meu estômago apertou.
— Olha — ele disse. Mostrou a tela.
Vi a foto. Era a imagem de uma mulher, presa de cabeça pra baixo e bem machucada, com cara de quem já não respira. Meu cérebro fez uma curva torta; meu corpo quis vomitar e, ao mesmo tempo, outra parte de mim queimou com uma raiva tão grande que parecia lâmina.
— O que é isso? — minha voz saiu fina.
— Não reconhece? — ele perguntou, seco. — Tamy. Ela está morta. Eu matei.
As palavras bateram como soco. Eu não conseguia acreditar. Quase ri de nervoso, como se rir fosse menos pesado que aceitar. Tamy morta. Luca matara.
— Você... — comecei. Tinha milhões de perguntas e nenhuma se organizava. — Você... matou ela?
— Ela armou tudo — ele falou rápido, tentando me segurar antes que eu me perdesse. — Levou imagens das nossas câmeras, tentou chantagear. Tinha contato com gente perigosa. Eu peguei ela no flagrante. Não quis espetáculo, não quero papo com imprensa. Resolvi. Está resolvido.
Meu corpo foi se acalmando por partes, como se as bordas da raiva fossem sendo aparadas. A foto batia na minha cabeça, e em volta dela vinha a sensação estranha de alívio, porque aquela mulher dava dor demais. Mas também vinha o choque — o fato de que ele tinha sido capaz.
— Como assim ela tinha contato com gente perigosa? — perguntei, ainda rouca. — Quem era?
Ele me contou então, pedaços curtos e secos. Walter. O meu padrasto. O mesmo homem nojento que eu lembrava como sombra — o que eu sempre soube que era um demônio. Aquelas palavras saíram pesadas. Meu estômago revirou de novo.

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