Capítulo 160
Derrick
Cheguei na clínica no limite do relógio. Os vidros já refletiam a noite e, por trás da porta de correr, as luzes tinham virado meia-luz de encerramento. A recepção estava vazia — só uma mulher guardando canetas numa caneca, computador já desligado.
Bati na porta. Nada. Bati de novo, mais forte. Ela levantou os olhos, fez sinal de “acabou”, e apontou pro relógio.
Ergui o envelope de retirada pelo vidro.
— Eu tenho uma coleta pra buscar. Hoje.
Ela aproximou-se, ainda do lado de dentro.
— Senhor, estamos fechados. Volte amanhã a partir das oito.
— Não. — Minha voz saiu baixa, seca. — Quero hoje.
— Sinto muito. Procedimento do laboratório. — Ela tentou sorrir, aquele sorriso de manual que irrita. — O setor técnico já encerrou.
Olhei em volta: corredor vazio, câmera no canto, o bip distante de alguma máquina no fundo. A corrente de raiva quis subir. Eu segurei. Toquei o coldre, respirei uma vez.
— Abre a porta.
— Senhor, eu não posso…
O clac do ferrolho do meu 9 mm dentro do paletó falou antes de mim. Encostei o metal no vidro só o suficiente para o som atravessar.
— Sou o Derrick Alves. Já deve ter ouvido falar de mim. Vai imprimir ou não?
O rosto dela perdeu cor.
— V-vou chamar o médico—
— Vai imprimir o exame. Agora. — interrompi. — E depois finge que nada disso aconteceu.
As mãos dela tremiam tanto que deixou cair a caneta. Correu até a sala dos fundos, tropeçando nas próprias pernas.
Fiquei parado, respirando fundo. O metal frio da arma contra a palma era a única coisa que me mantinha inteiro.
Ouvi o barulho do computador ligando. A impressora gemeu.
Minutos depois, ela voltou com o envelope branco, o logotipo da clínica carimbado em azul.
— A-aqui está, senhor.
Peguei.
— Boa garota. — Guardei a arma no coldre. — Ficará viva. É só o que eu quero.
Saí.
O vento da rua me atingiu com cheiro de chuva e gasolina.
O envelope pesava como chumbo entre meus dedos.
Fiquei parado um instante, olhando pra ele sob a luz amarelada do poste.
Pensando se abria ou não.
A mente gritava, mas o coração dizia espera.
Sentei no carro. Encostei a testa no volante, o motor ainda ligado.
A respiração vinha curta, desordenada.
O papel dentro do envelope parecia pulsar.
Podia abrir, mas não era justo.
Não dessa vez.
Fechei os olhos e respirei fundo, o peito apertado. Ela merecia abrir comigo.
E, pela primeira vez, eu queria fazer a coisa certa.
Guardei o envelope no banco do carona e dei partida.
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A mansão dos Black se erguia no alto da colina, imponente sob as luzes do portão.
Desci do carro e senti o ar frio da noite tocar o rosto. O coração batia descompassado — e cada passo parecia um julgamento.
A senhora Riley apareceu na varanda, de braços cruzados, olhar de quem sempre sabe mais do que diz. Acho que entrei na lista negra dela.
— Derrick? — a voz dela carregava cautela. — O que está fazendo aqui essa hora?
— Preciso falar com a Rúbia. É urgente.
Ela avaliou meu rosto. Eu devia estar uma desgraça — barba por fazer, olhos fundos, respiração pesada.
— Ela foi deitar cedo. Tá enjoada, com dor nos pés.
— Por favor, senhora. — Me aproximei um passo, quase suplicando. — Me dá uma trégua. Eu preciso falar com ela urgente. É sobre o resultado. — Mostrei o envelope. — Eu não abri.
Riley suspirou, longa.
— B**e na porta. Se ela quiser abrir, ela abre. Mas seja convincente.
Assenti.
— Obrigado, senhora.
Subi os degraus devagar. Cada um parecia mais alto que o anterior.
O corredor estava em silêncio, cortado apenas pelo tique-taque distante do relógio de parede.
Bati na porta. Nada.
Bati de novo, mas só recebi silêncio.
O coração acelerou.
Olhei para a chave mestra pendurada no cinto. Sempre tive acesso a casa inteira por ordem do Don.
Nem pensei.
Girei.
A fechadura fez um clique suave e empurrei a porta.
O vapor do banho ainda pairava no ar, com cheiro de sabonete e perfume leve.
E então ela apareceu.
O cabelo molhado caía pelos ombros, a pele ainda úmida, o pijama simples colado de leve no corpo.
Um pijama azul, com pequenos desenhos infantis. Inocente demais pra ela.
Por um segundo, esqueci o motivo de estar ali.
— Derrick! — Ela recuou um passo, surpresa. — O que está fazendo aqui?
— A gente precisa conversar. — Fechei a porta atrás de mim e travei.
— A gente não tem mais nada pra conversar. — O tom firme, o queixo erguido.
Dei um passo em direção a ela.

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