Capítulo 46
Riley Black
Emma sempre foi meu espelho e minha sombra.
Crescemos juntas, dividimos o mesmo teto, os mesmos medos, até os mesmos sonhos roubados pela vida que nos deram. Eu a amei desde quando nasceu, antes da máfia, antes de Luca ou Jackson aparecerem. E é justamente por isso que a dor de desconfiar dela parece me partir em duas.
Parte de mim quer acreditar que Emma continua sendo aquela menina que segurava minha mão quando eu chorava, que me defendia nas brigas pequenas da infância, chutando com sua perninha curtinha quem me desafiasse. Mas a outra parte… a parte que aprendeu a sobreviver entre homens que não perdoam fraquezas, sabe que até o sangue pode se tornar traiçoeiro.
Foi com esse peso no peito que sentei diante do notebook. Cada tecla que bati parecia um golpe contra mim mesma.
Um relatório falso. Uma armadilha. Uma prova que poderia afastar de vez a minha irmã de mim.
“Movimentação suspeita de soldados no depósito 3. Carregamento previsto para sexta-feira. Invasão no distrito "2" às: 18 horas para teste de funcionamento — Aqui estava a maior prova. Esse era real, eu vi num e-mail.”
Escrevi com frieza, mas por dentro implorava para que ela não caísse. Queria mais do que tudo estar errada.
Salvei o arquivo no pendrive prateado que encontrei no depósito, estava lacrado, abri e guardei o que precisava. Apertei-o entre os dedos, tentando segurar a culpa que queimava junto com o metal. Respirei fundo, escondendo-o no bolso do vestido.
O destino — ou talvez a própria ironia — fez com que eu a encontrasse no corredor poucos minutos depois. Emma vinha com aquele sorriso que só ela sabia usar: doce demais para ser inocente.
— Está com pressa? — perguntei, forçando uma naturalidade que eu não sentia.
— Só indo ao jardim. Preciso de ar fresco depois de tanto esfregar privadas. Seu marido é bem bravo. — Ela ajeitou o cabelo, mostrando inocência. — E você?
Aproveitei a deixa. Inclinei a cabeça e falei baixo, como quem compartilha um segredo:
— Preciso guardar um pendrive. Informações do Luca. Vou deixá-lo na gaveta do escritório, debaixo dos relatórios. É o lugar mais seguro da casa.
Os olhos dela brilharam por um instante. Rápido demais. Como se tivesse acabado de receber o presente que tanto queria.
— É mesmo? — Emma forçou um sorriso. — Faz bem em guardá-lo lá.
— Claro. — respondi, sustentando o olhar. — Se alguém ousasse tocar nisso, seria considerado um problema imenso. Luca faria picadinho de mim.
Ela não disse nada, apenas concordou, mas percebi o leve tremor nas mãos quando passou por mim.
Esperei algumas horas antes de me aproximar do escritório novamente. O coração martelava no peito, ansioso pelo flagrante, e mais ainda, implorando mentalmente para estar errada. Queria muito que Rúbia estivesse mentindo.
A porta estava entreaberta. Entrei.
A gaveta estava fechada. O pendrive ainda estava lá.
Peguei-o, analisando cada detalhe. Nenhum arranhão, nenhum sinal de que fora movido. Estava exatamente como eu havia deixado.
Aqui não tem câmeras pelo que vi. Luca gosta de ter sua privacidade. Então não adiantaria eu tentar procurar.
Mas mesmo assim, a dúvida me corroía. Emma teria entendido minha armadilha e escolhido não cair? Ou ela copiou e o recolocou no lugar antes que eu chegasse? Talvez Rúbia teria dito? Não sei se posso confiar nela, conheço tão pouco.
— Porque alguém espalhou a informação de que haveria movimentação hoje à noite para teste. — Pausou. — Recebi dois soldados diferentes me trazendo o mesmo boato.
Meu coração bateu forte contra o peito. Emma teria sido tão rápida?
— Mas… quem falou para eles? Você sabe? Tem como descobrir? — perguntei, controlando o tremor da voz.
— É o que eu quero saber. — O tom dele veio duro, desconfiado. — E não gosto quando conversas de corredor antecedem ordens minhas. Isso cheira a vazamento. Só mostrei para meu Consigliere, mas pode ser que Jackson ou minha mãe possam ter visto o e-mail.
Mordi o lábio, olhando em volta. O mordomo estava perto o suficiente para ouvir fragmentos. Dois guardas conversavam na porta da sala, atentos demais. Qualquer um podia ter mexido no pendrive ao me verem sair, mas a verdade é que só a Emma sabia que eu escondia algo.
O silêncio do outro lado me sufocava.
— Luca… — arrisquei. — Tem certeza de que não é fofoca de soldado querendo parecer importante? Talvez tenha como rastrear esse e-mail?
Ele riu baixo, um som sem humor.
— Em minha família, fofoca pode custar vidas. — E desligou.
Fiquei parada com o telefone na mão, os olhos fixos no nada.
Talvez tivesse sido Emma. Talvez o mordomo. Talvez apenas um soldado curioso que transformou rumor em notícia. Quem sabe Jackson não teve o mesmo acesso que eu ao e-mail? Eu não sabia. Só sabia que minha armadilha estava fora do meu controle.
Isso era um problema. Até porque Luca, logo desconfiou de mim.

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