Capítulo 48
Luca Black
Fechei a porta do escritório, sentei, respirei duas vezes. Então, em vez de abrir pastas, abri o que importa: minhas imagens.
Ninguém sabe, além de mim e do meu Consigliere, que há uma microcâmera instalada num ponto cego, acima do batente, voltada para a mesa. Não grava tudo — grava o que eu escolher gravar. E eu costumo escolher mais do que deveria. Hoje, em especial, eu precisava.
Reproduzi o trecho da tarde. Riley entrou sozinha. Sem hesitação. Vi a mão dela abrir a gaveta, vi o brilho prateado do pendrive, vi o gesto contido — o gesto de quem sabe que está fazendo algo que não deveria, mas precisa. Guardou o arquivo, fechou. Depois, horas mais tarde, voltou, checou, trancou a gaveta. O jeito de olhar. O instante em que prendeu a respiração. Tudo ali, na minha tela.
Abri a gaveta, saquei o pendrive, li. “Movimentação suspeita… Distrito 2… teste às 18h.” Mistura de isca e verdade. A pior espécie. E a única que funciona.
Ninguém mais entrou depois. Ninguém tocou na gaveta até eu mesmo tocar. Nem mordomo, nem soldado curioso, nem a irmã que agora ocupa cada fenda dessa casa com sorriso de santinha e curiosidade de raposa. Isso eu pude confirmar nas câmeras maiores, nos corredores, no pátio. Zero.
Resultado: a fofoca que voltou pra mim hoje não saiu daqui. Não desse pendrive. Alguém ventilou “Distrito 2” por outro caminho. O mais provável? Alguém farejou meus e-mails. Jackson tem a audácia. E minha mãe, Amélia, tem olhos demais em lugares demais. Mas há também o terceiro caminho: Riley está testando Emma. E isso… era irritante, mas interessante.
Eu estava nesse raciocínio — na beira da raiva, na beira da decisão — quando ouvi a maçaneta.
— Riley! — deixei o estalo da irritação sair. Eu disse que não queria ser incomodado.
Ela entrou cautelosa, o recado do jantar na ponta da língua. E, em dois passos, a cena virou outra: a gaveta que deixei aberta de propósito piscou no campo de visão dela; o cadarço do meu sapato, que eu deliberadamente não amarro quando preciso pensar, também. Ela contornou a mesa. Ajoelhou. Os dedos firmes no couro, o nó saindo perfeito, a respiração dela soprando de leve contra minha perna.
Pode chamar de futilidade. Eu chamo de gatilho. A raiva que eu trouxera do dia encontrou um caminho simples, direto, animal. Ali, a centímetros de mim, a mulher que me intriga, me provoca e, às vezes, me irrita na medida certa. Ajoelhada. Olhando para cima. Caralho... Ela é tão sexy.
Eu estava pronto para dizer “volta depois”, mas isso me excitou pra caralho.
Emma apareceu, mas dei a mínima. Minha mãe também teria que esperar.
O silêncio voltou. E com ele, Riley, ainda ajoelhada. Quando ela começou a se erguer, eu segurei seus cabelos num punho leve — não para machucar, apenas para dizer “fica”. Encostei-a em mim, por cima do tecido da calça. Senti a tensão dela, misturada com a minha.
— Resolva. — foi o que saiu da minha boca. Simples assim.
Ela apenas ergueu os olhos.
— Não acho uma boa ideia. Sua mãe está em casa.
Eu ri sem humor, a mão afrouxando, a outra buscando o que eu queria: a resposta, e depois, o alívio.
— Eu estou falando com você, não com ela, agora. — deixei as sílabas caírem lentas. — Ela que espere. Aliás, eu sei exatamente o que você fez e estou irritado. Você já deve imaginar o que acontece quando me irrito… Eu preciso de sexo, preciso de você. Preciso desligar a cabeça, Riley. Relaxar.
Ela tentou se levantar de novo — um reflexo de quem não gosta de misturar conversa séria com desejo. Puxei de leve a linha do queixo, guiei o rosto dela para mim, um roçar que não era grosseria; era um comando. Com a mão livre, alcancei a borda da gaveta e mostrei o pendrive entre os dedos. Um brilho de prata, um segredo exposto.
— Luca, eu… — ela começou.
— Shhh. — Não era para calá-la por completo; era para delimitar. — Só tenho uma pergunta. E depois quero que me alivie o estresse antes que eu faça isso do pior jeito possível: trabalhando até rasgar os olhos ou ficando louco.
O olhar dela bateu no meu, firme.
— Tudo bem. — disse, seca, aceitando o jogo, mas pondo sua condição silenciosa: verdade por verdade.
Soltei o cabelo dela, devagar.
— Está desconfiada da sua irmã? Fez isso para testá-la?



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