Capítulo 50
Riley Collins
Por um momento, tudo pareceu diferente naquela noite. A mesa de jantar, que sempre me deixava na defensiva diante da sogra, estava surpreendentemente tranquila. Luca havia tomado as rédeas, mas dessa vez foi por mim. Eu não precisei me explicar, nem abaixar a cabeça, nem tentar contornar uma humilhação dela. Bastou uma frase dele, firme, e Amélia se calou. A mulher que parecia dominar qualquer sala em que entrasse, dessa vez, teve de engolir em seco.
E eu… eu só precisei existir ao lado dele.
Comemos em silêncio por alguns minutos. O peixe que eu havia preparado o tempero parecia ter mudado de sabor depois do elogio que Luca me deu. Estava mais leve, mais vivo na boca, como se a aprovação dele tivesse temperado tudo de novo.
A sogra tentou, aqui e ali, puxar assuntos sobre o passado de Luca, sobre como ele sempre preferia carnes mais pesadas, sobre como ela “sabia” das manias dele, mas o filho não lhe deu muito espaço. As respostas vinham secas, calculadas, encerrando qualquer possibilidade de uma discussão. Eu assistia, discretamente, como ele tinha total controle da mesa — e me espantei em perceber que estava relaxando.
Talvez, pela primeira vez desde que Amélia cruzara aquela porta, eu pudesse respirar.
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O jantar avançou. A sobremesa veio, o café foi servido, e então ela se levantou.
— Meu filho, quero que me leve para casa. — anunciou como quem dá uma ordem.
— O motorista está lá fora. — Luca respondeu sem erguer os olhos da xícara.
— Dispensei. — retrucou, ajeitando os brincos de pérolas. — E dispensei os seguranças também. Eu sabia que você me levaria.
Luca ergueu o olhar devagar. Eu sabia reconhecer aquela pausa — a frieza antes da decisão.
— É claro que levo. — respondeu, enfim, sem tom de discussão. E então se voltou para mim. — Riley, vem conosco.
Senti o olhar da sogra cravar em mim como uma lâmina invisível. Um olhar de reprovação, de quem não estava nada satisfeita em dividir o carro do filho. Mas Luca não perguntou, não sugeriu. Mandou.
— Claro. — respondi, mantendo a voz calma, mesmo com o incômodo dela.
Alguns minutos depois, descíamos. O carro já nos esperava — preto, robusto, blindado até os dentes. Ao redor, mais três veículos discretos estavam prontos para a escolta. O motorista abriu a porta para Luca, que me estendeu a mão antes de entrar.
Amélia, contrariada, foi para o banco de trás. Eu fiquei na frente, ao lado de Luca. Ele iria dirigir.
— Não precisava me trazer. — murmurou ela, já fechando a porta. — Se quiser posso passar a noite aqui.
Luca não respondeu. Apenas fez um sinal para o comboio começar.
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A noite corria calma. As ruas estavam pouco movimentadas, os faróis iluminando trechos de calçada vazia. Do lado de fora, os vidros fumê do carro faziam parecer que estávamos em um casulo impenetrável. Eu quase acreditei nisso.
Mas foi na curva de uma rua mais estreita, já perto da casa de Amélia, tudo mudou.
— Luca… — murmurei, sentindo algo estranho. A rua estava deserta demais. Os postes intercalados criavam sombras longas, e não havia sequer o farol de um carro vindo em sentido contrário.
Ele percebeu também. O maxilar travou.
Então aconteceu.
Os faróis do carro da frente iluminaram uma barricada improvisada — dois veículos atravessados, bloqueando a passagem. Antes que qualquer um reagisse, o barulho seco de tiros ecoou. Os estalos contra a lataria eram abafados pela blindagem, mas o impacto ressoava no peito.
— Merda! — Luca avançou a mão e puxou minha cabeça para baixo, me empurrando contra o painel. — Fica abaixada!
— Meu Deus, meu Deus! — a voz de Amélia veio do banco de trás, histérica. — Eles estão atirando! Luca, tira a gente daqui!
A escolta reagiu de imediato. O carro da frente girou de lado, abrindo fogo pelas janelas. O da retaguarda fez o mesmo. Os flashes cortavam a noite como relâmpagos artificiais. O som de metralhadoras dominava tudo.
— É emboscada. — Luca murmurou entre os dentes. — Bastardos…
Ele tentou recuar, mas outro carro surgiu pela retaguarda, fechando a saída.
— Estamos cercados. — disse ele, nervoso.
Luca puxou a pistola do coldre sob o paletó e carregou. O som metálico ecoou dentro do carro.
— Se tentarem abrir a porta, atiro no primeiro que aparecer.
Eu tremia. Não só de medo, mas da consciência de que aquele não era o meu mundo. Eu não sabia manejar armas, não sabia reagir em tiroteios. Mas não era burra. Me forcei a respirar, a pensar.
— Luca! — ergui a cabeça o suficiente para olhar o entorno. — Essa rua é uma cilada. Tem só duas saídas, e eles fecharam as duas. Se insistir, vamos virar alvo fácil.
— Quer que eu atravesse a porra da barricada? (Obstáculos) — ele retrucou, os olhos fixos no cenário à frente. — Não vamos a lugar nenhum.
— Vai, sim. — rebati, firme. — Mas não agora, não por aí. Eles estão esperando.
Ele me lançou um olhar rápido, irritado.
— Riley, não é hora pra palpite.
— É exatamente a hora. — disparei, sem recuar. — Atrás da próxima quadra, à direita, tem uma rua de serviço que leva direto para a avenida principal. Os caminhões de coleta usam sempre ali, é mais largo e sem sinalização.
— E se tiver outra emboscada? — ele perguntou, a voz carregada de descrença.
— Não dá tempo de montarem duas no mesmo quarteirão. — respondi rápido. — Eles apostaram tudo nesse bloqueio. Se a gente se mover agora, enquanto a escolta segura o fogo, conseguimos atravessar.
Ele respirou fundo, os olhos faiscando. O instinto dele dizia que era arriscar a colisão direta. Mas eu via a lógica clara.


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