Capítulo 67
Riley Collins
Eu sabia.
Desde o primeiro segundo em que Luca falou “ouvi um choro”, alguma coisa dentro de mim apertou como um punho. Não era só medo, não era imaginação. Era a mesma sensação que tive quando Emma sumiu por horas e eu soube, antes de qualquer telefonema, que algo estava errado.
Quando Derrick abriu o painel falso e o choro rasgou o ar, minhas pernas cederam. Caí de joelhos sem perceber, as mãos indo sozinhas aos panos. A bebezinha — era uma menina, eu soube pelo rosa das roupas, pelo laço torto e rostinho delicado — soluçou alto quando sentiu minha pele, e eu comecei a balançá-la devagar, apoiando a cabeça dela no meu antebraço, o corpo colado ao meu peito.
— Calma, calma, calma… — minha voz saiu num sussurro trêmulo, mais para mim do que para ela. — Tá tudo bem, eu tô aqui. Sou a Riley.
Levantei o rosto e encarei Luca. O Chefe. Mãos embaixo do paletó, armas ainda pesadas, olhos duros como aço na meia-luz do quarto. Era o meu norte e o meu perigo. E, mesmo assim, eu falei:
— Chefe… deixa eu cuidar dela.
Ele nem piscou.
— Não. — a resposta veio seca, cortante. — Minha casa não é creche, nem instituição de caridade. Ainda mais um fruto inimigo.
A menina tornou a chorar, um choro faminto, curto e insistente. A boquinha abria procurando, as mãozinhas fechavam e abriam num gesto de desespero. Tadinha, deveria estar morrendo de fome.
Eu a balancei mais junto, com aquele movimento lento que eu aprendera a fazer com a filha da vizinha anos atrás, quando a mãe tinha crises e eu acabava ficando. O corpo pequeno grudou no meu, a respiração quente bateu no meu pescoço, e eu senti o cheiro de leite azedo misturado a talco barato.
— Ela está com fome, Chefe. — falei, e foi impossível esconder a urgência. — Escuta esse choro… é fome. Precisa de mamadeira agora.
— A gente não sabe de quem é. — Luca devolveu, glaciar. — Nem por que estava escondida. Pode ser isca. Pode ser a filha de algum Mendez. Pode ser uma armadilha.
— Armadilha que precisa de leite? — virei a cabeça para ele, o cabelo caindo molhado no meu ombro. — Se quisessem nos explodir, tinham feito com granada. Isso é um bebê, não um detonador.
Derrick cortou o silêncio, um passo à frente, o olhar rápido entre nós.
— Don… — a voz dele veio mais suave do que o normal. — Ela tem razão quanto à fome. O choro é típico. A princípio não tem risco eminente.
Ufa... Alguém me entendia.
Luca o encarou de lado, irritado por perder um centímetro de terreno. Eu segurei a menina com mais firmeza, sentindo o peso — uns cinco quilos, talvez. E a cabeça… firme. Ela segurava bem a minha mão quando eu encostava o dedo. Uns cinco meses, talvez seis. A gengiva dura, empurrando. A língua procurando. Dentes a caminho.

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