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Roubada no altar pelo chefe da Máfia romance Capítulo 68

Capítulo 68

Riley Black

Chegamos. A mansão Black me pareceu outra quando entrei com aquele embrulho vivo nos braços. O pé-direito alto, que sempre me dava a sensação de estar dentro de uma caixa forte, de repente era abrigo. O mármore gelado sob meus pés virou caminho apressado.

— Rúbia! — chamei alto, quase sem pensar.

Ela apareceu do corredor de serviço, assustada, ainda com um avental claro atado na cintura.

— Dona Riley… meu Deus, o que… — os olhos dela caíram na bebê. — É uma criança!

— É. — respondi, direto. — Precisamos de água fervida, mamadeira limpa, e alguém precisa ir comprar fraldas, lenços umedecidos, sabonete de bebê, pomada, paninhos de boca, roupa macia, chupeta… tudo. Tamanho P. Agora.

— Ninguém vai comprar nada. — a voz de Luca caiu pesada atrás de mim.

Eu virei com a menina no peito.

— Ela precisa, Chefe. — segurei o olhar dele. — Não é capricho. É necessidade.

— Necessidade é descobrir o que essa criança faz num covil dos Mendez. — ele retrucou. — E evitar que uma bomba caia no nosso colo. Você não manda aqui, Riley. Ainda é a minha casa.

— Então mande você. Ordene para sua casa ferver água e limpar mamadeira. — eu respondi, sem tremer. — A criança quer sossego para mamar, e vai mamar.

Os dois segundos de silêncio que se seguiram foram um duelo. Rúbia, coitada, olhava de um para o outro sem saber se respirava. Eu não desarmei. Ele não desarmou. Mas o primeiro a mover-se foi Derrick: entrou pela porta lateral com uma sacola de mercado e outro embrulho de papel pardo.

— Leite infantil, duas latas. Mamadeira, fraldas, lenços, e… — ele ergueu um pacotinho — três macacões. Tudo encontrado na cozinha e na lavanderia dos Mendez. Não peguei nada lá fora. — E, num gesto quase clandestino, me entregou outra coisinha: um paninho de ombro limpo, cheiro de sol. — Estava na bolsa.

— Obrigada. — eu disse, sentindo a garganta fechar por um segundo. Mas vi Luca cravar uma faca no Consigliere apenas com o olhar. Estava bravo.

— Rúbia, cozinha. — Derrick virou, assumindo parte da logística como se fosse a campanha de um general. — Ferve água, higieniza essa mamadeira. Eu preparo a mistura conforme a instrução da lata.

Luca ergueu uma sobrancelha seca.

— Virou enfermeiro, Derrick?

— Não, Don. — ele respondeu, sério. — Só não suporto ouvir criança com fome. Passei fome na infância, pelo amor de Deus. É só uma bebê.

Luca parecia um cão raivoso prestes a atacar.

E foi assim: Rúbia desapareceu para a cozinha num trote, e Derrick foi atrás, já tirando o paletó, arregaçando as mangas. Eu fiquei na sala com Luca me encarando como se eu estivesse derrubando um império com um cobertor rosa.

— Me dá ela. — ele disse.

— Não. — respondi, tranquila. — Ela se acalmou comigo. Vai mamar quietinha.

— Ou pode não ser filha de ninguém deles. — devolvi. — Pode ser de alguma funcionária que tentou salvar, ou de uma mulher coagida, ou de alguém que morreu essa noite. Você não sabe. Eu não sei. Ela menos ainda. Mas tem fome, frio e medo — e isso eu sei tratar.

Ele ficou quieto. A bebê parou de sugar por um segundo, olhou o nada com os olhos semicerrados, e retomou. Eu ajeitei a mamadeira, tirei um pouco para evitar que engasgasse, voltei. Rúbia, detrás, colocou um cobertor dobrado sobre o encosto do sofá, como quem traz uma oferenda, e sumiu outra vez.

— Não me peça o impossível. — Luca falou, por fim, baixo, para mim e só para mim. — Eu comando um mundo onde cada fraqueza custa caro.

— Então chama de estratégia. — retruquei, sussurro por sussurro. — Tiramos uma arma das mãos do inimigo. Se ela era de alguém deles, não é mais. Se não for, salvamos uma vida. Em nenhum cenário você perde hoje.

Os olhos dele afiaram, e eu soube que a porta que mais custa abrir nele é aquela que tem compaixão escrita por dentro. Não por falta, mas por medo do preço. Olhei para a bebê outra vez — a mãozinha agora largada, o leite quase no fim. Desencaixei a mamadeira, coloquei-a no meu ombro, bati de leve. Um ar saiu em um arroto minúsculo que me fez rir.

— Viu? — eu disse, sem esconder o orgulho idiota — É só uma bebê.

Ele coçou a barba com o polegar, pensativo. Havia algo nos olhos dele que eu já aprendera a reconhecer: a mente calculando rotas de fuga, perdas, ganhos, as possíveis traições do futuro. Eu sabia que não venceria hoje. Mas sabia também que abriria uma brecha.

— A menina fica até amanhã. — ele decretou, enfim. — Amanhã, cedo, a gente resolve isso.

A frase bateu no meu peito como porta meia-aberta.

— Amanhã. — repeti, devolvendo o peso da palavra. — Mas comigo.

— Com você? Não...

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