Capítulo 69
Riley Black
— Comigo. — ele corrigiu, mas “comigo” significava oque?
— E eu vou estar junto. — insisti. — E quando você for “resolver”, eu estarei com você.
— Você fala como se tivesse escolha. — ele sorriu de canto, perigoso.
— Posso não ter, mas você tem. Enquanto eu puder, vou tentar. O "não" eu já tenho, não é?
Ele respirou fundo, inclinou-se para trás na poltrona, olhou o teto por um segundo como se pedisse paciência. Quando voltou para mim, não havia mais raiva. Havia um cansaço denso, uma noite inteira grudada no corpo, e um reconhecimento que ele não admitiria em voz alta.
— Amanhã. — repetiu, encerrando. — E não me teste.
Balancei a cabeça, aceitando por enquanto. Já estava quase amanhecendo.
Encostei a bebê no meu peito outra vez, ajeitei o cobertor rosa sobre as perninhas. Os olhos dela, agora, eram dois riscos preguiçosos. A boca semiaberta, o suspiro quente. Eu passei o polegar de leve na sobrancelha minúscula e senti a força mais antiga do mundo empurrar meu peito por dentro.
Derrick reapareceu na porta, sem o paletó, camisa arregaçada, olhar de quem viu cem batalhas e ainda se espanta com a única que importa.
— O quarto de hóspedes do meio está pronto, dona Riley. — disse baixo, quase respeitoso. — Luz baixa, berço improvisado com gavetão e travesseiros firmes, tudo forrado. Deixei uma bacia com água morna e toalhas. Qualquer coisa, bato na porta.
— Obrigada, Derrick. — eu respondi, verdadeiramente grata e surpresa. Eu realmente não imaginava o Consigliere durão, fazendo isso.
— Amanhã de manhã ligo para meus contatos, faço as correrias. — ele acrescentou, desta vez para Luca. — Ver se alguém ouviu sobre recém-nascido desaparecido, funcionária com bebê, algo assim. Discreto. Sem rastro. Vou descobrir quem ela é.
Luca assentiu uma vez. Quando Derrick se foi, ficou só o som do relógio na parede e a respiração pequena no meu colo.
Eu me levantei devagar, com cuidado, o corpo inteiro consciente de cada músculo para não acordá-la.
Luca me seguiu com os olhos, não com os pés. Passei por ele. Senti quando seu olhar desceu para o meu braço, não para mim, mas para a bebê.
É interessante como a vida insiste em florescer nos lugares mais impróprios. Algum motivo deve existir pra isso.
No corredor, já distante, ouvi a voz dele, baixa, como se falasse consigo mesmo e com a casa inteira:
— Amanhã.
Eu sorri sem que ele visse. Amanhã, para ele, é ameaça. Para mim, é tempo. Tempo suficiente para descobrir de quem é essa menina, por que a esconderam, e como convencê-lo de que nem todo sangue pede vingança. Alguns pedem leite morno, um cobertor rosa e silêncio.
Entrei no quarto de hóspedes. A luz amarela desenhava um casulo. Deitei a bebê no berço improvisado, mantive minha mão sobre a barriga dela por algum tempo, sentindo subir e descer.
Hesitei por um segundo, como se aquela criança fosse minha responsabilidade e só minha. Mas logo cedi, entregando.
— Claro. Ela parece gostar de você.
Rúbia embalou de um lado para o outro, num ritmo de quem já conhecia o gesto desde sempre. O choro se transformou em resmungo, depois em silêncio. A respiraçãozinha curta retomou o compasso certo.
— Viu só? — ela sussurrou, sorrindo. — Nem precisou de muito.
Toquei o braço dela, agradecida. Depois de alguns minutos, coloquei a bebê de volta no berço.
O corredor estava quieto quando saí. A casa inteira parecia suspensa, como se esperasse o próximo passo de Luca. Mas não havia barulho de ordens, nem o ritmo pesado dos passos dele.
Subi devagar. A porta do quarto principal estava encostada. Empurrei com cuidado, e o que encontrei foi simples e raro: Luca, deitado de lado, ainda de camisa, um braço sobre o travesseiro. Dormia pesado, como alguém que cede ao corpo depois de segurar o mundo inteiro nas costas.
Fiquei ali por um instante, só olhando. O rosto dele, livre da tensão de sempre, parecia mais jovem, quase inocente — um retrato que poucos conheciam. Deslizei para dentro e fechei a porta devagar, sem ruído.
Tirei os sapatos, larguei-os num canto, e me aproximei. Deitei ao lado dele, primeiro de costas, só sentindo o calor que emanava do corpo grande. Mas a distância entre nós parecia inútil. Virei-me devagar, deslizei até encostar o rosto em seu ombro. O cheiro da colônia misturado ao suor seco me envolveu, familiar, perigoso e meu.
Ele não acordou, mas seu braço se moveu instintivo, puxando-me para perto, como se o corpo dele soubesse antes da mente que eu estava ali. Encostei a testa em seu peito e fechei os olhos.
"Amanhã” para ele ainda era ameaça. Para mim, agora, era promessa. Uma noite inteira cabia naquele espaço entre a respiração dele e a minha. E, por algumas horas, isso era suficiente.

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