Capítulo 81
Riley Black
Grávida.
A palavra entrou na sala antes de caber em mim. O médico disse, calmo demais para a avalanche que derrubou o meu chão. Aproximadamente quatro a cinco semanas.
Meu corpo esfriou por dentro, mas por fora eu fiquei parada, como se isso me protegesse de cair. Olhei para Luca buscando um pedaço de ar que fosse nosso. Não encontrei.
Meu peito doeu, como se uma porta tivesse batido na minha cara. O médico pigarreou, sem jeito, tentando manter a sala de hospital sendo uma sala de hospital.
— Senhor Black, a gestação está em fase inicial. O hímen estrelado não impede a concepção. O rompimento parcial é…
O silêncio que veio depois foi ainda pior. Eu segurei o celular novo no colo como se fosse escudo, as unhas marcando a capa.
— Você deveria ter tomado a pílula do dia seguinte. — ele completou, mais baixo, mas cada palavra pesando em cima de mim.
Eu respirei fundo para não reagir como uma bomba.
— E você deveria lembrar onde goza. — respondi, sem elevar a voz. — Eu confiei em você.
Abaixei a cabeça logo em seguida. Não porque eu estivesse errada, mas porque não queria chorar na frente de quem sempre parece pronto para vencer qualquer guerra — menos a que começa dentro da gente.
— Entendo que seja um choque. — o médico retomou, voltando aos papéis. — Mas preciso esclarecer o protocolo. Não realizaremos o procedimento de himenectomia durante a gestação. Seria inseguro. O mais indicado é iniciar o pré-natal imediatamente no país de residência. Vamos fornecer um relatório completo, além de prescrever suplementação e exames de seguimento.
— E… e está tudo bem com o bebê? — minha voz falhou no “bebê”. Dizer em voz alta foi como arriscar uma lâmina contra a própria pele.
— Dentro do que é possível avaliar tão cedo, sim. — ele respondeu, profissional, porém gentil. — Com quatro a cinco semanas, às vezes conseguimos auscultar batimento por doppler, às vezes não. Se desejarem, posso tentar uma ecografia rápida. Pelo tempo, provavelmente só ouviremos o coração.
Meu coração quis. Meu orgulho não perguntou nada. Eu olhei para Luca.
— Não é necessário. — Luca respondeu imediatamente. Olhei pra ele na hora.
— Você não quer essa criança também? — perguntei, encarando ele por inteiro, sem tremer. — Como não quis a menina Mia?
O nome ficou pendurado na sala como um candelabro antigo, pesado e perigoso. O olhar de Luca ficou de pedra.
— Não compara. — ele disse, frio. — Essa criança é minha. É diferente. Eu não esperava agora, mas no fundo é bom. Nenhum filho da puta vai questionar cargos na empresa e na máfia.
Alguma coisa dentro de mim descolou do lugar e caiu. Foi o barulho mais silencioso que já ouvi.
Ainda ontem ele me beijava e parecia se importar comigo. Hoje duvido de qualquer coisa. Ele só pensou no dinheiro agora.
— Certo. — o médico quebrou a tensão, recolocando a caneta no bolso. — Então, reforço: pré-natal com obstetra de confiança onde moram. Evitar esforços excessivos, álcool, e seguir a suplementação. Posso encaminhar tudo por e-mail ainda hoje.
— Faça isso. — Luca respondeu, eficiente. — Obrigado.
Eu não disse obrigada. Eu só queria ir embora daquela sala.
— Desejam tentar a ecografia agora? — o médico insistiu, olhando primeiro para mim, depois para Luca. — Mesmo que ouvíssemos apenas o batimento, pode ajudar a…
— Não precisa. — Luca cortou, sem olhar para mim. — Faremos com o médico dela.
Senti as costas pedirem apoio e não havia parede por perto. Concordei com a cabeça, muda, para o médico, porque alguém precisava ser educado naquela sala. Ele assentiu, deixou folhetos sobre suplementação ao meu alcance e saiu.
Ficamos nós dois e um silêncio que gritava.
— Vamos. — Luca disse, já abrindo a porta.
— Vamos. — repeti, tateando meu casaco, o celular, qualquer coisa que me mantivesse de pé.
O corredor estava gelado, clínico, asséptico. Eu sempre achei que lugares assim significavam segurança. Pela primeira vez, não significavam nada.
— Sou racional. Falei que não queria filho agora.
— Se fosse tão racional teria tomado mais cuidado. Está acostumado com uma vida sexual ativa, eu não.
— Chega, já aconteceu.
Eu me virei um pouco, o suficiente para ver o contorno do rosto dele. Ali estava o homem que segura meu mundo com uma mão — e às vezes aperta demais. O homem que me defende até o limite — e às vezes me fere no meio do caminho. O homem que, ontem, foi casa; e hoje, parede.
Afivelei o cinto, fechei os olhos e coloquei a mão na barriga pela primeira vez.
Foi automático, instintivo, como quem procura um batimento com a própria pele.
— Oi, pequeno. — eu sussurrei, quase sem som, só com a boca. — A mamãe tá aqui.
Senti um vazio cheio de possibilidades. A mão ficou, decidida. O resto do corpo quis tremer, mas eu não deixei. Não ia ser agora que eu ia desabar.
— Quando pousarmos, a mamãe vai marcar consulta e vai te ver... — falei para o bebê e só então percebi que Luca ainda prestava atenção.
— Eu já pedi para o Derrick cuidar disso. — ele devolveu, eficiente.
Ele não disse mais nada, nem discutiu. Eu também não.
O avião taxiou. O comissário falou sobre segurança. As turbinas aumentaram o som até abafar pensamentos. Eu me agarrei no que restava de mim e do que começava dentro de mim.
No silêncio alto do ar, com Luca a dois assentos e mil quilômetros, eu aceitei uma verdade simples: o mundo dele pode ser medido em poder e território; o meu, não. O meu agora tem um coração do tamanho de uma semente, batendo num ritmo que ele não quis ouvir.
Tudo bem. Eu vou ouvir pelos dois.
Fechei os olhos, apertei a mão sobre a barriga e, pela primeira vez desde que a palavra entrou na sala, eu me permiti um sorriso que ninguém viu.
Era pequeno. Mas era meu, era do nosso bebê.

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