Capítulo 82
Riley Black
O relógio marcava quase sete da noite quando entramos em casa. A viagem, a consulta, a frieza dele… tudo ainda pesava sobre os meus ombros, mas eu não queria parar. Parar significava pensar, e pensar doía.
Luca subiu direto para o andar de cima, falando com Derrick no celular, a voz firme como se nada tivesse acontecido. Eu caminhei até o local onde estavam as pilhas de papéis que Luca pediu pra que eu verificasse. Ninguém me seguiu. Ótimo.
Fechei a porta devagar, acendi o abajur e deixei a luz amarela cortar o breu. A mesa ainda estava cheia de pastas e relatórios. Eu não era só a mulher de Luca; eu trabalhava também, e agora administraria a empresa.
Sentei, respirei fundo e comecei a organizar. Minhas mãos moviam os papéis, mas minha cabeça ainda estava presa naquela sala de hospital. A palavra “grávida” ecoava em mim como sino quebrado.
Foi no meio dessa distração que percebi.
Um envelope antigo, escondido entre contratos recentes. O papel amarelado denunciava a idade. Trinta anos atrás, pelos carimbos e pelas datas. Tinha alguns mais recentes.
Abri com cuidado. Não esperava nada demais — talvez alguma compra de terreno, alguma fusão esquecida. Mas o que vi me fez franzir o cenho.
Transferências. Valores enormes, em cifras que hoje ainda pareceriam absurdas.
E todas destinadas ao mesmo nome.
“Erasmo Fiore.”
Li de novo, como se pudesse ter entendido errado. O sobrenome não era estranho. Eu já tinha visto em alguma pasta de segurança, em relatórios de investigações antigas. Não era nome de herdeiro jovem, nem de empresário moderno. Era nome de velho. Pelas datas, devia ser um senhor agora — se ainda estivesse vivo.
A dúvida ardeu dentro de mim. Quem era ele para a família? Ali dizia claramente: “consultoria de transportes.” Só que o carimbo do banco mostrava outra coisa — repasses diretos, sem nota de serviço. Dinheiro saindo da Black Corporation para um fantasma.
Meu primeiro impulso foi levar até Luca. Mostrar, perguntar. Mas logo veio a lembrança do hospital.
"Essa criança é minha. É diferente. Nenhum filho da puta vai questionar cargos na empresa.”
O gosto amargo voltou à boca. Eu não ia perguntar nada a ele. Não hoje.
Peguei uma pasta vermelha, guardei aqueles documentos dentro e fechei com cuidado. Essa eu mesma cuidaria.
O som de batidas leves interrompeu o silêncio. Me encontraram.
— Senhora? — a voz do mordomo soou do outro lado.
— O que foi? — perguntei, sem levantar.
— A Rúbia precisa conversar com a senhora.
Suspirei, ajeitei a pilha de papéis e respondi:
— Tá, eu já vou sair.
Guardei a pasta vermelha no fundo da estante, atrás de relatórios comuns, e saí. O corredor estava mais quente do que o escritório. A lareira da sala já devia estar acesa.
Rúbia estava de pé, segurando a pequena Mia no colo. O coração me apertou de culpa.
— Meu Deus, acabei esquecendo de ir ver você. — estendi os braços e a peguei com cuidado. O corpinho leve, o cheirinho de leite, o jeito como ela agarrou meu dedo de imediato… tudo isso me desmontou.
Rúbia pigarreou, nervosa.
— Senhora, ela precisa de mais leite, mais fraldas e alguns itens.
— Pediu ao Consigliere? — perguntei, ajeitando a manta sobre a bebê.
Ela fez uma careta.
— Não, senhora. Se eu peço, ele quer ficar o tempo todo com a menina. A cada meia hora me assusto com ele aparecendo como um fantasma no quarto.
Um sorriso cansado escapou dos meus lábios.
— Ah, mas pode deixar. Ele está solicitando a adoção dela. Deixe ele se aproximar.
— Mas… eu pensei que fosse a senhora a ficar com a pequena.
Meu peito apertou de novo, mas de outro jeito.
— Infelizmente o chefe deixou bem claro que não quer. — balancei a cabeça, a voz falhando. — Ele mal quis o próprio filho… o bebê que eu estou esperando.
Foi aí que ouvi a voz de Emma atrás de mim.
— Você está grávida? — ela exclamou, correndo na minha direção. — Ah, meu Deus!
Não tive forças para responder. Só segurei mais firme a pequena Mia até sentir o abraço da minha irmã me cercando. Eu devia me afastar, devia me proteger… mas não consegui.
Emma encostou a testa na minha.
— Vai ficar tudo bem, Riley. Nós vamos ajudar.
Rúbia assentiu, emocionada, ajeitando o avental.
— Pode contar comigo também, senhora. Com os dois bebês.
Eu não disse nada. Só deixei o silêncio virar resposta, porque qualquer palavra minha sairia quebrada.
— Se o Consigliere deixar... Vou cuidar.
Eu ri baixinho.
— Coitada dela, já nasceu com uma família inteira ao redor.
Emma apoiou a cabeça no meu ombro.
— Não “coitada”. Sortuda. Igual ao bebê que você carrega. Ele também vai ter a gente.
Apertei Mia contra o peito, sentindo o calorzinho dela misturar com o meu.
E pensei: se o mundo não me der espaço, eu mesma vou criar. Para ela. Para o meu bebê. Para mim.
— Senhora, a bebê precisa arrotar. A senhora quer que eu faça?
— Pode ser, mas Rúbia... Já é tarde. Você ainda não começou os cursos que queria fazer? — ela segurou a pequena e sorriu.
— Eu comecei..., mas vou faltar hoje pra ficar com ela. Não sei até quando vou poder, porque o Consigliere vai adotar.
— Você gosta tanto assim de criança?
— Ah, na verdade... Ela tem o rosto parecido com o de uma irmã minha que desapareceu. Eu olho pra ela e vejo a Lia.
O Consigliere apareceu do nada.
— Desapareceu quando? Isso faz tempo? — ela virou pra ele enquanto fazia a pequena arrotar.
— Ah, faz. Uns dois anos. Meus pais morreram num acidente e ela desapareceu do local.
— Tem alguma foto?
— Tenho no celular. — Ela me entregou a pequena e puxou o celular do avental.
Foi até Derrick e mostrou a foto. Vi nos olhos dele que algo estava errado. Passou a mão pela boca, depois levou a cintura, impaciente.
— Qual o seu sobrenome?
— Miller. Rúbia Miller.
— Certo. Venha até o escritório daqui meia hora.
Ele simplesmente saiu.

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