Capítulo 83
Luca Black
O escritório estava mergulhado em silêncio quando ouvi as batidas rápidas na porta. Não era o som paciente de quem espera, mas o de quem precisa entrar.
— Entre. — autorizei, sem levantar os olhos dos papéis.
Derrick entrou como um furacão. Ombros tensos, maxilar travado, passos duros até a frente da mesa. Ele raramente se deixava trair pela impaciência, mas agora parecia incapaz de segurar.
— Don… você não vai acreditar. — a voz saiu baixa, mas carregada. — Descobri quem é a possível família da bebê Mia Miller.
Meus olhos deixaram os relatórios e encontraram os dele.
— Quem? — perguntei, seco, mas a tensão atravessando minha voz.
— Rúbia. A que trabalha aqui na casa — ele disse, como quem solta uma bomba.
Soltei o ar devagar, me recostando na poltrona.
— Rúbia? — repeti, como se testasse o peso da palavra.
Ele assentiu, andando de um lado a outro.
— Ela acabou de me mostrar uma foto. A irmã dela, Lia Miller que desapareceu a dois anos num acidente de carro, os pais morreram e a irmã sumiu. Mesma fisionomia da mulher que encontramos com a bebê. É a mesma, Don. A mesma.
Minha mão fechou em punho sobre a mesa.
— Então ela foi roubada… pelos Méndez. — o veneno escorreu da minha boca. — Filhos da puta. Só machucaram a mulher.
Derrick parou de andar, me olhando fixo.
— Exatamente.
— Se essa criança é filha de algum deles, significa perigo. Não é uma boa ideia adotar. — Falei.
Derrick passou a mão pela boca, depois na cintura, impaciente.
— Está me dizendo que devo desistir da adoção?
— Eu acho que sim. Entregamos pra Rúbia, e...
Ele balançou a cabeça, firme.
— Não. Eu vou assumir isso. — respirou fundo, como se queimasse por dentro. — Eu quero adotar a menina. E para garantir, vou propor casamento para a Rúbia.
Minha sobrancelha arqueou no mesmo instante.
— Casamento?
— Sim. — a voz dele não vacilou. — Ela é tia de sangue, Don. Pela lei, se descobrirem, a guarda vai direto para ela. Os Méndez podem tentar usar isso contra nós. Mas se eu casar com ela, garantimos a adoção, fechamos qualquer brecha e ainda blindamos a menina com o meu sobrenome. Futuramente podemos fazer algum acordo que a deixe segura.
O silêncio ficou pesado, só o estalo da madeira queimando na lareira preenchendo a sala. Eu me recostei na cadeira, estudando Derrick como se fosse a primeira vez.
— Tem certeza do que está dizendo? Isso vai mudar a sua vida inteira.
Ele me encarou de volta, o olhar duro, mas com algo que eu não via sempre — uma centelha de decisão pessoal, quase íntima.
— Tenho, Don. Nunca falei tão sério. Essa criança não vai voltar para mãos erradas. Nem que eu tenha que dar meu nome a ela. Sem contar que Rúbia é uma mulher linda. Não me parece um problema.
Fiquei em silêncio, mas dentro de mim algo se moveu. Derrick não estava só cumprindo ordens — estava assumindo um destino.
Assenti uma vez.
— Então faça. Prepare os documentos. Mas antes precisa falar com ela.
Ele baixou a cabeça em respeito.
— Sim, Don.
— Vai dizer a verdade?
— Não sei. Decido na hora...
Observei Derrick em silêncio por alguns segundos depois que saiu do meu escritório. Ele não titubeava quando se tratava de negócios, mas agora… não era negócio. Era pessoal. E isso mudava tudo.
Encostei-me na cadeira, girando levemente de frente para a lareira. A chama dançava, mas meu olhar estava fixo nele, que caminhava de volta ao corredor para chamar a funcionária. Eu queria assistir. Queria ver até onde ele levaria essa decisão. Apesar de tudo, eu ainda me preocupo com ele.
Minutos depois, Rúbia entrou. Estava com o uniforme simples, ainda com o celular no bolso do avental. Não parecia entender o peso daquilo que a aguardava. Derrick fechou a porta atrás dela e fez sinal para que sentasse.
— Olha, não tem muito o que eu possa fazer, mas preciso te contar uma coisa. — disse ele, direto, a voz mais grave do que o habitual.
Ela arregalou os olhos, desconfiada.
— Está me assustando, Consigliere… vai me demitir? Eu preciso do emprego.
— Mas eu consigo adotar se procurar a justiça. Sou a tia. Se me permitirem eu faço isso.
— Você ouviu o que eu disse? Se ela tiver algum laço com o Mendez, ao declarar que ela está viva e você é a tia... Vão tentar te matar. Talvez as duas. Ou quem sabe te levem como levaram sua irmã. Eu posso te proteger. E sucessivamente a Mia.
— Eu… eu não sei… Isso é demais. Preciso de tempo. Por favor, me deixe pensar. Eu posso pensar?
— Eu entendo. — Derrick respondeu, mas havia tensão na linha do maxilar.
Ela apertou os dedos uns contra os outros, hesitante.
— Onde está o corpo da minha irmã? Existem fotos? Alguma prova?
Ele desviou o olhar por um instante, antes de devolver com frieza contida:
— Não. Foi queima de arquivo. Não restou nada. Queimamos o que ficou.
Ela fechou os olhos, respirando fundo, como se tentasse não gritar. Eu decidi intervir.
— Podemos providenciar um exame de DNA sigiloso. — falei, com firmeza. — Isso dará a você a confirmação.
Os olhos dela se voltaram para mim, marejados, mas agora mais decididos.
— Sim… — ela assentiu, a voz embargada. — Eu aceito o exame.
— Só que se for confirmado... Você casa com o Derrick.
— Como? Ela me olhou diferente.
— Estou te propondo algo. Se ela for sua sobrinha você casa com ele. Fui claro?
— Sim Don.
— Você ainda pode tentar na justiça. Não vou te impedir. Te dou o direito de brigar pela guarda e solicitar os exames por lá. Só que sabe dos riscos. Acho que não preciso lembrar.
— Certo senhor.
— Você aceita?
— Eu aceito.
Ficamos todos em silêncio. Derrick a observava com intensidade, e ela, ainda trêmula, segurava a barra do avental como se fosse a única âncora.

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