Capítulo 85
Luca Black
Saí do escritório alguns minutos depois de Derrick. O relógio na parede marcava quase nove da noite, e a casa estava mergulhada num silêncio denso. Dei a volta pelo corredor e, pela vidraça, vi o Consigliere ao lado da Rúbia.
O jeito dela… ombros encolhidos, passos miúdos, olhar sempre no chão. E ele, imóvel, olhando-a como se fosse dono do destino dela. Não precisei ouvir uma palavra para saber que as coisas não estavam bem. A tensão entre os dois estava estampada em cada gesto. Só que diferente de mim quando casei, Derrick quer uma família. É isso não estava indo como deveria.
Continuei andando, sem ser visto, até a outra ala. Quando Derrick entrou por um corredor oposto, sozinho, o chamei.
— O que houve? — perguntei, sem rodeios.
Ele passou a mão pela barba, visivelmente incomodado.
— Não sei se tomei a decisão certa, Don. — a voz dele era firme, mas eu percebi a hesitação escondida. — A Rúbia… parece ter nojo de mim. Me olha como se eu fosse um monstro.
Mantive o olhar sobre ele por alguns segundos, medindo não as palavras, mas o peso que ele carregava. Derrick não era homem de confessar fraquezas. Quando o fazia, era porque realmente estava no limite.
— Não se preocupe, vou resolver isso. — respondi, firme.
— Deixa que eu me viro. Fui eu que escolhi isso.
— Só senta lá no jardim. Tem um banco no centro. O resto eu resolvo.
Ele assentiu, mas o peso ainda estava lá nos ombros dele. Afastei-me, descendo as escadas até o andar inferior.
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Na sala, vi Riley e Emma conversando perto das janelas. O tom de voz baixo, mas a expressão atenta da Riley me dizia que não era assunto qualquer. Fiz um sinal discreto, apenas com a mão, e Emma captou na hora. O Consigliere apareceu pela lateral, indo em outra direção. Aproveitei o momento e encostei a porta da sala, isolando o espaço.
— Está na hora de começar a trabalhar pra mim, Emma. — disse, aproximando-me devagar. — Provar pra Riley que está do lado dela.
Ela arqueou as sobrancelhas, confusa.
— É só que… você disse que não contaria nada para a minha irmã. Mas ela está estranha. Você falou, não foi? Por quê?
Bufei, aproximando-me mais, sem pressa.
— Por quê? Você encontrou com ela na empresa e se fez de santa. A irmã boazinha, carente, frágil. Eu esperava que, no mínimo, fosse sincera, porra. — inclinei o corpo um pouco para frente, a voz grave. — Que dissesse: Olha, Riley… a gente precisa conversar. Eu me enganei, cometi erros, mas percebi. Você acha que teria um tempo pra me ouvir? — Não. Você se fez de sonsa. Mas eu não espero a ruína, Emma. Trabalho sempre um passo antes. Jamais correria o risco de deixar você manipular a Riley, porque ela não sabe como você pensa, e porque é influenciável. Eu sei. E não gosto de correr riscos.
Emma mordeu o lábio, respirando fundo.
— Eu iria contar.
— Bom… — soltei um sorriso frio. — Agora só se explica, porque ela já sabe.
Ela estreitou os olhos.
— Me chamou só por isso?
— Não. — respondi, seco. — Eu ordenei o casamento do Consigliere com a Rúbia. Mas ela está fazendo corpo mole. Quero que você converse com a Riley. Pergunte sobre a adoção da Mia pelo Derrick. Depois diga que vai casar com ele. Que vai beijar. Que vai se jogar no colo dele. Ela precisa acreditar que é verdade. E ninguém pode saber que te pedi.
Emma engoliu em seco.
— Tá… mas eu preciso beijar de verdade?
— Não. — cortei. — Só quero que a Rúbia veja que não é só ela na pista.
— E a Riley? — questionou, cautelosa.
— Ela precisa acreditar que você quer o Derrick.
— Se quiser… — ela mordeu o lábio inferior, inclinando o rosto para mais perto — eu poderia provar agora mesmo que não tenho medo de você.
Derrick engoliu em seco, desviando o olhar. Mas, num gesto quase imperceptível, abaixou um pouco o queixo. Não pediu. Não precisou. Deixou no ar a possibilidade.
Foi nesse instante que Rúbia surgiu.
Os passos dela ecoaram duros no gramado, o coração estampado nos olhos. Segurava Mia contra o peito, mas parou a poucos metros, o suficiente para ver Emma pender o rosto a centímetros da boca do Consigliere.
Entregou a menina a Riley e foi até lá.
— Basta. — a voz dela saiu firme, mais alta que a própria coragem.
Emma virou o rosto, divertida, como se tivesse conseguido exatamente o que queria.
— Ora… a tia corajosa chegou.
Derrick abriu a boca para falar, mas não teve tempo. Rúbia atravessou o espaço e, sem pensar, segurou a mão de Derrick e o puxou. Ergueu-se na ponta dos pés. Segurou o rosto dele com uma das mãos e o beijou.
Não foi longo. Não foi doce. Foi apenas uma marcação. Um “ele é meu” jogado na frente de todos.
E, antes mesmo que Derrick pudesse reagir, ela já havia recuado. Os olhos fixos em Emma, o peito arfando.
— Ele é meu noivo. — disse, sem tremer. — Por ordem do Don.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emma arqueou as sobrancelhas, divertida com o espetáculo. Riley levou a mão à boca, surpresa.
E eu, da janela, apenas observei. Não sorri. Não era para rir. Aquilo era um jogo sério — e cada peça estava, finalmente, se movendo como eu planejei.
É bom Rúbia saber que se bobear, pode perder. Vou adiar um pouco o casamento. Ela precisa tratar Derrick melhor.

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