Capítulo 88
Emma Collins
Peguei o celular e o destravei. A tela iluminou meu rosto. Minha mente correu de uma opção a outra: mensagem? Ligação? SOS escondido? Enquanto eu fingia deslizar a lista de contatos, abri, com o polegar, o painel rápido e tentei ativar discretamente o compartilhamento de localização. Aquele aparelho não era o meu; as configurações eram mínimas, mas havia uma opção de “Enviar localização por SMS” nos contatos frequentes. O nome “Riley” estava ali — claro que estava, mas o número não era dela, era do Consigliere. Apertei duas vezes, fingindo que estava só procurando o número.
Jackson notou o tempo que levei.
— Anda porra. — ele aproximou a arma do meu rosto. — Deixa eu ver o número.
Mostrei a tela, tinha o nome dela.
— Eu quero ouvir.
Toquei em “ligar”. O viva-voz foi a escolha óbvia — ele queria ouvir —, então deixei no alto-falante. Antes do primeiro toque, pressionei a lateral do celular três vezes, uma função que o Consigliere tinha mandado configurar: gravar a chamada e manter a linha aberta mesmo se aparentemente travasse. Eu só podia torcer para que isso não entregasse nada no som.
Chamou. Uma vez. Duas. Três.
— Atende… — sussurrei, sem saber se pedia ou temia.
— Alô? — a voz da Riley veio enrolada de sono. — Emma?
Fechei os olhos por um segundo, de alívio. E me agarrei à personagem que Jackson queria — enquanto tentava avisá-la sem avisar.
— Riley… eu… — deixei a voz falhar de propósito, rouca. — Eu estou passando… não sei… acho que é pânico… ou uma alergia… Minha garganta… (não menti, não era totalmente.) — Eu precisava de você. Vem… vem aqui.
Jackson ergueu o queixo, satisfeito. A arma permaneceu, firme, apontada para mim.
— Onde você está? — Riley despertou mais um grau. — Emma, respira. Eu vou te buscar.
— No… no apartamento que o Luca emprestou, a uma quadra da empresa. O motorista sabe onde é— engoli em seco, olhando pra arma. — Mas… — e joguei a isca — vem sozinha, tá? Sozinha. O Luca não precisa vir, ele me odeia.
Houve um silêncio de um segundo do outro lado. Eu conhecia minha irmã. Ela ouviria a estranheza nessa frase. Era o tipo de pedido que eu não faria, não daquele jeito. Apertei o celular com força, como se pudesse transmitir tudo pela pele: “Tem alguém aqui. Perigo.”
— Emma, você está com quem? — a voz da Riley veio mansa, mas alerta.
O olhar de Jackson se estreitou. Ele fechou a distância em um passo e apertou meu joelho com força.
— Diz que está sozinha. — rosnou, baixo.
— Estou… sozinha. — respondi, e respirei fundo para não chorar. — Só que… — procurei uma senha que fizesse sentido para ela e não para ele — traz o casaco azul com botões de pérola pra mim? Aquele que a mamãe odeia.
Riley não respondeu na hora. “O casaco azul com botões de pérola” não existia. Eu estava inventando um objeto impossível, um truque velho nosso de adolescência quando queríamos sinalizar perigo sem dizer a palavra. Se a outra respondia “qual tamanho?”, era porque tinha entendido. Era isso ou nada.
— Qual tamanho? — Riley perguntou, devagar.
Fechei os olhos por meio segundo. Agradeci em silêncio.
— O de sempre. — respondi, a garganta queimando. — Vem rápido.
— Tô indo. — ela disse. — Fica comigo na linha mais um minuto, tá?
Jackson arrancou o celular da minha mão, finalizando a chamada com um toque seco. O bip do desligar foi como uma porta batendo na minha cara.
— Chega. — ele disse, e jogou o aparelho no braço do sofá. — Vai pro quarto. Se você fizer qualquer gracinha, eu acabo com tudo aqui e agora.
— Você… — busquei ar. — Você vai se arrepender.
— Demora muito, não. — ele disse, de costas para a janela, a arma flutuando entre o meu tronco e o chão.
— Já vou. — respondi, e virei o copo.
Deixei a água cair pelo queixo de propósito, como se ainda estivesse atrapalhada. O truque funcionou: ele revirou os olhos, impaciente, e deu dois passos para a direita, fazendo com que o próprio reflexo surgisse no vidro da janela detrás dele. Se Riley tinha entendido — e ela tinha entendido —, não viria sozinha. Não viria sem um plano. Eu precisava sobreviver até lá.
Voltei com o copo. Sentei de novo. Bebi metade, devagar, para controlar a respiração. Minha garganta doía, mas fazia o trabalho.
— Então é isso? — perguntei, como se quisesse conversa. — Você vai esperar?
— Vou. — ele respondeu, seco. — E, se o Luca aparecer, eu resolvo.
— Você fala como se fosse fácil.
— É. — e o sorriso voltou. — Porque eu sou sempre dois passos à frente. Você vai ver.
Olhei para a janela, depois para o celular no braço do sofá. O aparelho piscou uma notificação: “Localização enviada”. Pequena, rápida. Ele não percebeu. Eu mantive o rosto impassível.
— Dois passos, então. — murmurei. — Veremos.
E fiquei quieta. Contando o tempo pela dor pulsando na bochecha, pelo ritmo da minha respiração e pela chegada inevitável de alguém do lado de fora daquela porta. Tremendo por dentro, mas inteira. Segurando com os dentes o fino fio de coragem que ainda me restava — por mim, por Riley, e pelo bebê dela.
Jackson apoiou a arma no antebraço e recostou no encosto da poltrona, de frente para a porta, dono do tabuleiro. Eu também recostei, dona do que me cabia: o relógio.
Cada segundo agora era uma peça em movimento.
E eu não pretendia desperdiçar nenhuma.

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