Capítulo 98
Derrick
Eu e Luca fomos cedo resolver os assuntos importantes da Amercana. O tipo de cedo que a rua ainda não devolveu o eco dos passos. A “mercadoria” estava onde deveria estar — duas caixas longas e uma maleta que valiam mais que silêncio. Luca dava ordens com a calma de quem sabe que todo erro custa sangue. Eu contava homens, carros, janelas, saídas. Velhos hábitos.
Conferimos números, selos, assinaturas. As caixas subiram; a maleta ficou comigo. Deu tudo certo, ou o mais perto disso.
Quando o último cadeado estalou, Luca inclinou um pouco a cabeça para mim.
— E aí, como está com a Rúbia?
Olhei de volta, curto.
— Não sei. Tô indo. Ela me olha estranho as vezes.
Ele me mediu de cima a baixo, a boca contraindo um meio sorriso de deboche.
— Cara, faz meses que você não corta esse cabelo. E essa barba… Certeza que tá assustando a moça.
— Ué, esse sou eu. — Dei de ombros. — Ela é que tem algum receio de mim. Talvez até nojo.
— Passa no barbeiro. — Ele deu dois toques no relógio. — Eu vou com os homens resolver o resto. Você volta pra casa depois. Me sinto mais seguro com você de olho na casa. Principalmente na Riley.
Assenti, seco.
— Tá. Tô precisando dar uma aparada.
---
A cadeira do barbeiro rangia como as de antigamente. Eu encarei meu reflexo: cabelão indócil, barba de quem briga melhor do que conversa. O barbeiro veio com a capa preta.
— O de sempre? Bom... Se é que lembra. Faz uns cinco meses desde a última vez que esteve aqui.
Abri a boca pra dizer “sim”, mas a imagem no espelho puxou outra resposta da língua.
— Me deixa… apresentável. — A palavra saiu estranha. — Um bom desenho na barba. Bem curtinha, quase sumindo. E um corte mais curto. Com algum charme. — Pausa. — Vou sair com uma mulher hoje.
O cara mordeu um sorriso.
— Pode deixar.
As tesouras cantaram. O som das lâminas limpou minha cabeça, fio por fio. A cada mecha que caía, eu via o cansaço indo junto. A navalha lambendo a pele, a espuma cheirando a menta, o pente alinhando o que eu sempre deixava torto. Quando ele girou a cadeira para o espelho, por um segundo não me reconheci.
Dez anos mais jovem. Ou, pelo menos, menos velho.
— E aí?
— Tá… bom. — Admiti.
Paguei e saí com a sensação estranha de que tinha trocado de rosto no meio de uma guerra.
---
A casa respirava segurança. Dois homens no portão, um na lateral, o mordomo que parecia ter nascido já de luvas. No jardim, vi Riley com a menina Mia. Então entrei. Queria achar a Rúbia, mostrar o novo visual pra ver a cara dela e se iria gostar, falar, tirar as pedras do caminho.
Mas ao invés dela, encontrei Emma na sala.
— Chega!
— Você não pensou no seu braço quando encostou em homem de outra! — Rúbia gritou com ela, mas em seguida olhou pra mim — Pensei que tivéssemos um acordo — ela disse, as palavras bem cortadas. — Não estou disposta a ser traída. Se essa é a sua intenção, me esquece. Nós nos veremos no tribunal para a guarda da Mia.
— Rúbia, espera —
Ela virou o corpo e saiu pelo corredor, a saia do uniforme riscando o ar, a coluna reta de quem jurou não derramar uma lágrima. Fui atrás. Emma me segurou pelo antebraço.
— Espera… me ouve. Por favor.
Virei o rosto, impaciente.
— O que foi, Emma? Já fez estrago o suficiente. Eu tô noivo dela. Agora entendeu errado. Não é suficiente pra você?
Ela sorriu… torto.
— E se ficar noivo de mim?
— O quê?
— Olha, se é uma criança que você quer, eu já estou esperando uma. — Ela ergueu o queixo. — Posso jurar que é sua, se precisar. E garanto que sou mil vezes mais sensual e atirada que a babá. Posso te deixar louco em minutos.
Seu olhar malicioso deixou tudo bem claro.
O mundo ficou em silêncio por um segundo. Não pelo que ela disse — mas pelo que tentou mover dentro de mim. Ela deu um passo, uma mão que não estava com faixa, grudou na minha cintura.
Merda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Roubada no altar pelo chefe da Máfia