POV SELINA
Eu gosto da hora de dormir.
Não porque eu gosto de dormir, eu até prefiro ficar acordada, mas porque é quando tudo fica mais quieto. Quando ninguém manda, ninguém corre, ninguém fala alto. É quando eu posso pensar sem alguém dizer que eu estou pensando demais.
O Selin estava deitado do meu lado, de barriga pra cima, com as mãos embaixo da cabeça. Ele faz isso quando está tentando parecer adulto.
Eu estava abraçada no travesseiro.
— Selin… — sussurrei.
— Hm?
— Você dormiu?
— Não.
Eu sorri no escuro. Eu sabia.
— Você gosta do tio Adrian? — perguntei.
Ele demorou um pouco pra responder. Selin sempre demora. Ele pensa antes.
— Gosto.
— Eu também.
O quarto estava escuro, mas eu conseguia ver o teto por causa da luz fraquinha que vinha do corredor.
— Ele é diferente — falei.
— Diferente como?
— Ele brinca com a gente sem fingir. — expliquei. — Ele escuta. Ele lembra das coisas. Ele não fala com a gente como se a gente fosse… pequeno.
Selin virou o rosto pra mim.
— Eu percebi isso também.
— E ele protege a mamãe — continuei. — Você viu hoje? Quando ela ficou olhando a piscina, ele ficou do lado dela. Bem perto. Como se estivesse cuidando.
— Vi.
Fiquei em silêncio um pouco.
— Selin… — falei de novo, mais baixo. — Se a gente pudesse escolher… você queria que ele fosse nosso pai?
O Selin não respondeu na hora.
Eu achei que ele ia brigar comigo. Ou dizer que eu estava falando bobagem.
Mas ele suspirou.
— Às vezes, sim.
Meu peito ficou quentinho.
— Eu queria muito — confessei. — Ele não grita. Ele não assusta a mamãe. Ele faz ela sorrir de verdade.
— Ele é bom pra ela — Selin concordou.
— E ele gosta da gente — falei rápido. — De verdade. Não só porque tem que gostar.
— Sim.
Eu virei de lado, encarando ele.
— Você acha que a mamãe gostaria se a gente falasse isso?
Ele pensou.
— Acho que ela ficaria confusa.
— Ela fica confusa fácil ultimamente — murmurei.
A porta do quarto fez um barulhinho.
— Vocês estão conspirando? — a voz do tio Adrian apareceu, divertida.
Eu e Selin nos mexemos rápido, fingindo que estávamos quase dormindo.
— Hmmm… — fiz, me fazendo de sonolenta.
Ele entrou devagar, como se tivesse medo de acordar monstros imaginários.
— Vocês cochicham mais do que gente grande — ele disse, sentando na beira da cama.
— Segredo — Selin respondeu.
— Ah… — o tio Adrian levou a mão ao peito. — Fui excluído.
Eu ri.
— Não é segredo ruim.
— Ainda bem — ele sorriu. — Porque segredo ruim dá dor de barriga.
— Eu nunca tive dor de barriga — falei.
— Isso explica muita coisa — ele brincou.
Ele ajeitou o cobertor em cima da gente. Primeiro em mim. Depois no Selin. Com cuidado. Como a mamãe faz.
— Vocês estão bem? — ele perguntou, mais sério agora.
— Tamo — respondi.
— A mamãe tá triste? — Selin perguntou, do nada.
O tio Adrian ficou quieto um pouco.
— Ela tá cansada — disse. — Às vezes, adultos ficam cansados por dentro.
Eu segurei o cobertor com mais força.
— Você cuida dela? — perguntei.
Ele me olhou com aqueles olhos azuis que parecem saber de tudo.
— Cuido.
Meu coração ficou feliz.
— Então tá bom.
Ele sorriu e passou a mão no meu cabelo.
— Dorme, pequena.
— Tio Adrian… — chamei antes que ele levantasse.
— Oi?
— Você pode ficar aqui um pouquinho?
Ele olhou pro Selin. Depois pra mim.
— Posso.
Ele ficou sentado na poltrona, olhando pra gente como se estivesse vigiando o quarto inteiro.
Ele achou que eu tinha dormido. Mas eu não tinha.
Eu fiquei olhando pra ele no escuro, com a luz fraquinha do corredor desenhando o rosto dele. Ele parecia diferente quando achava que ninguém estava olhando. Mais quieto. Mais… verdadeiro.
— Tio Adrian… — sussurrei.
Ele deu um pulo pequeno.
— Você ainda tá acordada, pequena espiã?
— Tô.
— E por que você tá acordada?
— Porque eu pensei numa coisa.
Ele sorriu daquele jeito que começa pequeno e cresce.



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