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Senhor Ex-Marido, quer que eu te salve? Se ajoelhe! romance Capítulo 110

POV SELINA

Eu gosto da hora de dormir.

Não porque eu gosto de dormir, eu até prefiro ficar acordada, mas porque é quando tudo fica mais quieto. Quando ninguém manda, ninguém corre, ninguém fala alto. É quando eu posso pensar sem alguém dizer que eu estou pensando demais.

O Selin estava deitado do meu lado, de barriga pra cima, com as mãos embaixo da cabeça. Ele faz isso quando está tentando parecer adulto.

Eu estava abraçada no travesseiro.

— Selin… — sussurrei.

— Hm?

— Você dormiu?

— Não.

Eu sorri no escuro. Eu sabia.

— Você gosta do tio Adrian? — perguntei.

Ele demorou um pouco pra responder. Selin sempre demora. Ele pensa antes.

— Gosto.

— Eu também.

O quarto estava escuro, mas eu conseguia ver o teto por causa da luz fraquinha que vinha do corredor.

— Ele é diferente — falei.

— Diferente como?

— Ele brinca com a gente sem fingir. — expliquei. — Ele escuta. Ele lembra das coisas. Ele não fala com a gente como se a gente fosse… pequeno.

Selin virou o rosto pra mim.

— Eu percebi isso também.

— E ele protege a mamãe — continuei. — Você viu hoje? Quando ela ficou olhando a piscina, ele ficou do lado dela. Bem perto. Como se estivesse cuidando.

— Vi.

Fiquei em silêncio um pouco.

— Selin… — falei de novo, mais baixo. — Se a gente pudesse escolher… você queria que ele fosse nosso pai?

O Selin não respondeu na hora.

Eu achei que ele ia brigar comigo. Ou dizer que eu estava falando bobagem.

Mas ele suspirou.

— Às vezes, sim.

Meu peito ficou quentinho.

— Eu queria muito — confessei. — Ele não grita. Ele não assusta a mamãe. Ele faz ela sorrir de verdade.

— Ele é bom pra ela — Selin concordou.

— E ele gosta da gente — falei rápido. — De verdade. Não só porque tem que gostar.

— Sim.

Eu virei de lado, encarando ele.

— Você acha que a mamãe gostaria se a gente falasse isso?

Ele pensou.

— Acho que ela ficaria confusa.

— Ela fica confusa fácil ultimamente — murmurei.

A porta do quarto fez um barulhinho.

— Vocês estão conspirando? — a voz do tio Adrian apareceu, divertida.

Eu e Selin nos mexemos rápido, fingindo que estávamos quase dormindo.

— Hmmm… — fiz, me fazendo de sonolenta.

Ele entrou devagar, como se tivesse medo de acordar monstros imaginários.

— Vocês cochicham mais do que gente grande — ele disse, sentando na beira da cama.

— Segredo — Selin respondeu.

— Ah… — o tio Adrian levou a mão ao peito. — Fui excluído.

Eu ri.

— Não é segredo ruim.

— Ainda bem — ele sorriu. — Porque segredo ruim dá dor de barriga.

— Eu nunca tive dor de barriga — falei.

— Isso explica muita coisa — ele brincou.

Ele ajeitou o cobertor em cima da gente. Primeiro em mim. Depois no Selin. Com cuidado. Como a mamãe faz.

— Vocês estão bem? — ele perguntou, mais sério agora.

— Tamo — respondi.

— A mamãe tá triste? — Selin perguntou, do nada.

O tio Adrian ficou quieto um pouco.

— Ela tá cansada — disse. — Às vezes, adultos ficam cansados por dentro.

Eu segurei o cobertor com mais força.

— Você cuida dela? — perguntei.

Ele me olhou com aqueles olhos azuis que parecem saber de tudo.

— Cuido.

Meu coração ficou feliz.

— Então tá bom.

Ele sorriu e passou a mão no meu cabelo.

— Dorme, pequena.

— Tio Adrian… — chamei antes que ele levantasse.

— Oi?

— Você pode ficar aqui um pouquinho?

Ele olhou pro Selin. Depois pra mim.

— Posso.

Ele ficou sentado na poltrona, olhando pra gente como se estivesse vigiando o quarto inteiro.

Ele achou que eu tinha dormido. Mas eu não tinha.

Eu fiquei olhando pra ele no escuro, com a luz fraquinha do corredor desenhando o rosto dele. Ele parecia diferente quando achava que ninguém estava olhando. Mais quieto. Mais… verdadeiro.

— Tio Adrian… — sussurrei.

Ele deu um pulo pequeno.

— Você ainda tá acordada, pequena espiã?

— Tô.

— E por que você tá acordada?

— Porque eu pensei numa coisa.

Ele sorriu daquele jeito que começa pequeno e cresce.

— Eu sei.

Nesse momento, a porta do quarto abriu de leve.

— O que vocês dois estão cochichando aí? — a voz da mamãe apareceu.

Eu virei rápido.

— Mãe!

O tio Adrian quase caiu da poltrona.

— Lianna! — ele levantou rápido demais.

A mamãe entrou e parou. Olhou pra ele. Olhou pra mim. Olhou pro Selin, que fingia dormir muito mal.

— Por que você tá vermelho? — ela perguntou.

Ele pigarreou.

— Calor.

— Nesse quarto? — ela arqueou a sobrancelha. — Em Genebra?

Eu ri.

— Eu disse pra ele casar com você — contei, antes que alguém pudesse me impedir.

Silêncio.

A mamãe piscou.

Uma vez.

Duas.

O tio Adrian parecia uma chaleira prestes a apitar.

— Selina! — ela tentou segurar o riso. — O que foi que você disse?

— Que ele devia ser seu marido — repeti, tranquila. — Porque você sorri mais quando ele tá aqui.

O quarto ficou estranho.

Mas não ruim.

Só… diferente.

O tio Adrian olhava pra mamãe como se estivesse esperando uma sentença.

Ela olhou pra ele.

E sorriu.

Um sorriso pequeno. Surpreso. Meio tímido.

— Vocês dois precisam dormir — ela disse, por fim.

Ela veio até a minha cama e beijou minha testa.

— Sonha bonito, meu amor.

— Sonho — prometi.

Ela fez o mesmo com o Selin.

— Boa noite, campeão.

— Boa noite — ele murmurou.

Quando ela se virou pra sair, olhou de novo pro tio Adrian.

— Obrigada por ficar com eles.

— Sempre — ele respondeu, ainda meio corado.

A porta se fechou. Eu virei de lado e sorri no escuro. Histórias de princesa sempre começam assim.

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