POV ZAYDEN
Eles estão na minha casa.
A constatação me atravessa com uma satisfação quase física.
Vejo Lianna pela porta de vidro da cozinha, ajudando Selina a guardar os talheres. Selin observa tudo com aquele olhar atento demais para uma criança. Herdou isso de mim. Não adianta negar.
A casa finalmente faz sentido.
Durante anos, tudo o que tive foram espaços grandes demais e silêncio. Agora há passos. Vozes. Pequenas interrupções. Vida.
E ela.
Lianna se move como se estivesse em território inimigo. Cada gesto controlado. Cada palavra medida. Ela acha que está aqui por obrigação.
Está.
Mas não só por isso.
— Jantar pronto — anuncio.
Eles se sentam. Selina fala sobre a escola. Selin faz perguntas sobre a casa, a piscina. Inteligente. Calculista. Meu filho.
Lianna quase não come.
— Você precisa se alimentar — digo, servindo vinho.
— Não — ela responde. — Estou bem.
— Ainda tem esse hábito de fingir força — observo. — Nunca soube quando parar.
Ela me encara.
— Não comece.
Sorrio de leve.
— Não estou começando. Estou constatando.
O jantar termina em silêncio educado. As crianças sobem para escovar os dentes. Lianna recolhe os pratos, mesmo com funcionários à disposição.
Sempre foi assim. Ela precisa se sentir útil para não desmoronar.
Eu a sigo até a cozinha.
— Você pode deixar isso — digo. — Não está aqui para servir.
— Também não estou aqui para obedecer — ela responde.
Encosto na bancada, observando-a.
— Você percebe que ainda manda em tudo quando está nervosa?
— E você percebe que ainda tenta dominar quando perde o controle?
Silêncio.
— Um mês — relembro. — Só isso. Se conseguir provar que sou um risco real, você sai com tudo. Divórcio. Guarda. Distância.
— E se você provar o contrário? — ela pergunta.
Dou um passo à frente.
— Então você fica.
Ela ri, sem humor.
— Você ainda acredita nisso?
— Acredito no que vejo — respondo. — E o que vejo é você aqui. Na minha casa. Com nossos filhos.
A palavra “nossos” pesa.
Ela se afasta.
No quarto principal, Lianna está sentada na cama, mexendo no celular.
— As crianças dormiram — digo.
— Ótimo.
— Você ainda fala comigo como se estivesse de passagem — observo.
— Porque estou.
Aproximo-me devagar.
— Não minta para si mesma. — digo. — Parte de você quer entender como chegamos aqui.
— Eu já entendi — responde. — Você confundiu amor com posse.
A frase me atinge mais do que deveria.
— E você confundiu fuga com proteção — retruco.
Ela se levanta.
— Boa noite, Zayden.
— Boa noite… esposa.
Ela congela por um segundo. E sai. Fico sozinho no quarto grande demais.
Mas sorrio. Porque agora, ela não pode fugir. E eu tenho tempo. E quando Lianna para de correr, ela lembra.
E quando ela lembra, volta.
Um mês.
É tudo o que preciso.

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