POV LIANNA
A casa não dorme.
Ela respira.
Não é barulho. É presença. Um peso invisível que ocupa cada corredor, cada parede clara demais, cada porta que fecha com um som que ecoa mais do que deveria.
As crianças finalmente pegaram no sono depois de muito custo.
Selina pediu água três vezes. Selin quis saber se a porta do quarto ficaria trancada. Eu disse que sim, mesmo sabendo que não estava.
Quando fechei a porta deles, minha mão tremia.
Eu só percebi isso quando tentei girar a maçaneta.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
Controle, Lianna.
Sempre foi assim.
O quarto que Zayden separou para mim é grande demais. Tudo ali parece calculado para impressionar. A cama enorme. A poltrona posicionada de frente para a janela. O banheiro integrado, de vidro fosco, como se privacidade fosse apenas uma sugestão.
Coloquei a mala no chão e não tive forças para desfazer.
Troquei de roupa devagar. Camiseta larga. Calça de algodão. Nada que lembrasse intimidade. Nada que pudesse ser interpretado.
Deitei na cama como quem se deita num campo inimigo.
De lado. De costas para a porta. Como se isso fosse me proteger.
Fechei os olhos.
Erro.
O silêncio trouxe memórias demais.
A forma como ele costumava entrar no quarto sem avisar. O som dos passos. A certeza de que não havia para onde ir.
Meu coração disparou.
Abri os olhos de novo.
O teto era branco. Alto. Frio.
Levantei e fui até a janela. Do lado de fora, a cidade dormia. Genebra brilhava como se nada estivesse errado.
A mão foi automaticamente até o colar no meu pescoço. Presente de Adrian. Âncora.
O celular vibrou na mesa de cabeceira.
Meu estômago afundou.
Mensagem.
> ADRIAN:
Já dormiram?
Fechei os olhos por um segundo antes de responder.
> LIANNA:
Sim. Demorou, mas dormiram.
A resposta veio rápido demais.
> ADRIAN:
E você?
Engoli seco.
> LIANNA:
Tentando.
Três pontinhos apareceram. Sumiram. Voltaram.
> ADRIAN:
Se em algum momento você se sentir em perigo real, você me liga. Não importa a hora. Eu vou.
Meu peito apertou.
> LIANNA:
Eu sei. Obrigada.
Não escrevi o que realmente queria dizer: Não me deixa esquecer quem eu sou.
Guardei o celular.
Foi quando ouvi.
Passos.
Não perto.
Não longe.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
A maçaneta do meu quarto se mexeu.
Não abriu.
Mas se mexeu.
Não era real.
Mas meu cérebro jurou que era.
O mesmo perfume.
A mesma presença atrás de mim.
Meu corpo reagiu antes da mente.
Sentei na cama, ofegante, o coração quase saindo pela boca.
— Não… — sussurrei para o vazio.
Levantei de novo e fui até o banheiro. Liguei o chuveiro, mesmo sem intenção de tomar banho. Precisava do som da água. Precisava de algo que abafasse a minha cabeça.
Sentei no chão frio, encostada na parede, abraçando os joelhos.
— É só um mês. — murmurei. — Só um mês.
Mas o medo não negocia com o tempo.
O celular vibrou novamente.
Número desconhecido.
Meu corpo congelou.
Abri.
Uma única mensagem.
> ZAYDEN:
As crianças estão seguras.
Durma, Lianna.
As mãos começaram a tremer de verdade agora.
Apaguei a mensagem.
Desliguei o celular.
Voltei para a cama com o corpo exausto demais para continuar lutando.
A última coisa que pensei antes de adormecer, finalmente, foi no rosto de Adrian. No jeito como ele me olhava sem querer me possuir.
E foi isso que doeu mais.
Porque naquela casa, naquela noite, eu não tinha escolha.
Mas ainda tinha memória.
E isso, eu prometi a mim mesma, Zayden nunca mais iria tirar de mim.

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