POV LIANNA
O escritório do advogado cheirava a café velho e papel.
Era um cheiro neutro, técnico, quase cruel, porque ali não havia espaço para medo, só para fatos. E fatos não se compadecem de ninguém.
O meu advogado folheava os documentos com uma calma irritante, como se minha vida não estivesse inteira ali, empilhada em folhas.
— Doutora Lianna… — ele começou, sem levantar os olhos. — Vou ser direto.
Meu estômago se contraiu.
— Prefiro assim.
Ele assentiu, finalmente me encarando.
— A medida cautelar solicitada pelo senhor Adrian foi… precipitada.
Fechei os olhos por um segundo.
— Eu imaginei.
— Não é que esteja errada em essência. — ele continuou. — Há indícios de perseguição, sim. Fotografias, mensagens veladas, presença constante. Mas o problema não é o que foi feito. É quem fez.
— Ele não deveria ter feito isso. — murmurei.
— Exatamente. — Henri disse. — Para o tribunal, isso abre margem para uma narrativa perigosa: a de que você está sendo influenciada por um terceiro com interesses pessoais.
— Interesses pessoais? — minha voz saiu amarga. — Ele só quer proteger.
— O tribunal não julga intenções. — ele respondeu. — Julga aparências, precedentes e controle.
A palavra bateu em mim como um soco.
Controle.
— Zayden é influente. — ele continuou. — Financeiramente, politicamente, institucionalmente. E agora ele pode alegar que você está criando um ambiente instável para as crianças, cercando-se de decisões impulsivas.
— Impulsivas? — repeti, incrédula. — Eu fugi de um homem violento!
— Eu sei. — Henri disse, com firmeza. — E isso vai ser levado em conta. Mas precisamos ser estratégicos. Qualquer movimento agora pode ser usado contra você.
Minhas mãos tremiam no colo.
— Ele pode tirar meus filhos de mim?
Henri respirou fundo antes de responder. O tipo de pausa que já é uma resposta em si.
— Em um cenário extremo? — ele disse. — Não imediatamente. Mas ele pode pedir guarda compartilhada emergencial, visitas monitoradas que deixam de ser monitoradas, convivência progressiva…
— Não. — sussurrei. — Eles não podem ficar sozinhos com ele.
— Eu concordo. — ele disse. — Por isso precisamos evitar qualquer atitude que pareça confronto direto neste momento.
— E o Adrian?
O nome saiu antes que eu pudesse segurar. Ele me olhou com atenção renovada.
— Ele precisa… recuar.
Meu peito apertou.
— Se afastar?
— Visivelmente. — ele confirmou. — Não desaparecer da sua vida, mas sair da linha de frente. Pelo menos por enquanto.
Engoli seco.
— E o divórcio?
— Enquanto ele não assinar, juridicamente vocês ainda são casados. — Henri disse. — E isso pesa. Muito.
Eu passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço me esmagar.
— Então o que o senhor está dizendo é que… — minha voz falhou — …ele tem vantagem.
— No momento? — Henri respondeu. — Sim.
Silêncio.
— O que eu faço?
Ele fechou a pasta, apoiou as mãos na mesa.
— Aguenta. — disse, sem rodeios. — Ganha tempo. Não reage. Não provoca. Não dá munição. E documenta tudo.
— E se ele vier com uma proposta?
Henri franziu o cenho.
— Que tipo de proposta?
Meu celular vibrou em cima da mesa. Número conhecido. Meu sangue gelou.
Zayden.
— Doutor… — murmurei. — Ele está me ligando agora.
Henri me encarou.
— Atenda. — disse. — E coloque no viva-voz.
Meu coração batia tão alto que eu mal ouvi o clique da chamada.
— Lianna. — a voz dele veio suave demais. — Espero que tenha tido uma boa conversa com seu advogado.
Meu corpo inteiro gelou.
— O que você quer, Zayden?
— Sempre direta. — ele riu baixo. — Eu admiro isso em você. Mesmo agora.
— E se eu recusar? — perguntei, já sabendo a resposta.
— Então eu entro com tudo. — ele disse, sem emoção. — Guarda compartilhada imediata. Exposição da sua relação com o médico. Questionamento psicológico. Pedido de avaliação parental.
Henri levantou os olhos, tenso.
— Você não pode fazer isso. — murmurei.
— Posso. — ele respondeu. — E você sabe.
— Um mês… — repeti, sentindo náusea. — Você acha mesmo que eu colocaria meus filhos sob o mesmo teto que você depois de tudo?
— Eu acho que você fará isso porque é inteligente. — ele disse. — Porque você sabe que perder um mês é melhor do que arriscar perder anos.
Meu corpo começou a tremer.
— Adrian não vai aceitar isso. — murmurei.
— Adrian não decide nada. — Zayden respondeu, frio. — E talvez seja hora de você lembrar disso também.
Silêncio.
— Pense com calma. — ele concluiu. — Você sempre foi boa em sobreviver.
A ligação caiu.
O escritório parecia menor. Mais sufocante.
Henri me encarou por longos segundos.
— Ele está jogando alto. — disse.
— E eu estou presa. — sussurrei.
— Não completamente. — ele respondeu. — Mas essa proposta… — suspirou — …é uma armadilha elegante.
— Se eu aceitar, eu me coloco em risco.
— Se recusar, coloca as crianças. — ele concluiu.
As lágrimas finalmente caíram.
— O que eu faço?
Henri foi honesto até o fim.
— Qualquer decisão vai doer. — disse. — A pergunta é: em qual dor você consegue manter o controle?
Saí do escritório com o mundo girando.
O céu parecia claro demais para o que estava acontecendo dentro de mim.
Um mês.bUm teto. O mesmo homem que me destruiu. E meus filhos no meio disso tudo.
Zayden não queria acordo. Ele queria me lembrar que, para ele, eu nunca deixei de ser propriedade. E desde que fugi… eu tive medo de não conseguir escapar de novo.

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