POV Lianna Aslan
SETE ANOS DEPOIS
As lâmpadas cirúrgicas pairavam sobre mim como sóis brancos e implacáveis. O silêncio na sala só era quebrado pelo bip regular do monitor cardíaco, o som ritmado da ventilação mecânica e o tilintar dos instrumentos quando passavam de mão em mão.
Eu já não tremia. Não há espaço para hesitação quando a vida de alguém está aberta diante dos seus olhos. Minhas mãos estavam firmes, como sempre estiveram quando eu decidira, sete anos atrás, que nada, absolutamente nada, me faria abrir mão da medicina novamente.
— Pinça de Kelly. — minha voz soou calma, ainda que a pressão da cirurgia fosse quase insuportável para qualquer outro.
Um dos residentes ao meu lado quase tropeçou no banco para me entregar o instrumento, nervoso. Eu sabia o que ele sentia: admiração misturada a medo. Já havia me acostumado com aqueles olhares.
A "Doutora Aslan", como me chamavam agora, tinha se tornado uma lenda viva em corredores de hospitais renomados de Zurique a Nova Iorque, de Pequim a Dubai. E isso não me enchia de vaidade, mas de uma estranha sensação de sobrevivência.
Enquanto suturava com precisão, percebi o suor escorrer pela têmpora do anestesista. O procedimento era considerado impossível por muitos. Uma cirurgia vascular cerebral dupla, com risco quase absoluto de morte. Mas para mim, a palavra “impossível” deixara de existir no dia em que fugi da mansão de Zayden. Quando você já enterra uma parte de si mesma, o que resta não teme nada.
A enfermeira, com olhos arregalados, murmurou sem querer:
— É como assistir arte.
Fingi não ouvir. Não era arte. Era sobrevivência. Sempre foi.
Duas horas depois, tirei as luvas e caminhei até a pia. Lavei as mãos devagar, o som da água batendo contra a cuba de aço misturado ao alívio silencioso da equipe. O paciente ainda estava sedado, mas vivo. Contra todas as estatísticas.
— Excelente trabalho, doutora. — disse um dos diretores do hospital, que havia acompanhado a cirurgia do observatório. — Você acaba de salvar não só um homem, mas um legado inteiro.
Assenti sem me virar. Não buscava aplausos. Não buscava manchetes. Eu buscava apenas... respirar.
***
Na sala de descanso, a rotina hospitalar retomava seu ritmo frenético. O cheiro de café queimado e desinfetante se misturava ao barulho dos saltos no chão de mármore.
Foi ali que ouvi a voz que menos queria ouvir naquele momento.
— Pois é, a Doutora Aslan arrasou de novo. — disse uma voz feminina, carregada de falsa doçura. — Mas, sinceramente, até parece que ela é feita de gelo. Nenhum homem consegue ficar com uma mulher assim.
Olhei de relance e encontrei Viviane, filha do diretor. Linda. Jovem. Arrogante. E terrivelmente incompetente.
O tipo de mulher que fazia cirurgias estéticas em pacientes que nem precisavam e tirava selfies no centro cirúrgico como se fosse uma influencer da desgraça.
Ela sorriu ao me notar.
— Oh, doutora Aslan, parabéns pela cirurgia! — disse, teatralmente. — O hospital inteiro está falando disso.
— Obrigada. — respondi, seca, servindo-me de café.
Vivianne inclinou a cabeça, fingindo inocência.
— Deve ser difícil, né? Ser tão... sozinha.
— Desculpe?
Ela deu um risinho.
— Digo, nunca vimos o seu marido. Nem nas festas do hospital, nem nos eventos. As pessoas comentam, sabe? Alguns dizem que ele te abandonou... outros que ele morreu.
Olhei pra ela, e o silêncio entre nós ficou denso. Ela esperava me ver reagir. Mas eu apenas ergui o olhar e disse:
— Talvez ele tenha morrido mesmo. — sorri de leve. — E, se morreu, foi a melhor coisa que me aconteceu.
O sorriso dela vacilou.
— Credo, doutora... que coisa horrível de se dizer.
— Horrível é viver presa a um homem e chamar isso de amor. — repliquei, virando o café de um gole.



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