Henrique apertou os lábios, hesitando em dizer alguma coisa.
Mas, no final das contas, acabou engolindo as palavras.
Com a voz grave, Henrique continuou:
— Quando a Estrela se casou e entrou para a família Freitas, foi uma decisão acordada entre as duas famílias. Além do mais, na época, o nosso relacionamento já estava em crise. Nós termos terminado não pode ser colocado só na conta dela.
— Ela tinha tudo para ter um futuro brilhante, mas durante todos esses anos na família Freitas, ela só sofreu.
— Meu pai a tratava com indiferença, minha mãe a humilhava e exigia o impossível, a Roberta vivia batendo de frente com ela por sua causa, e há pouco tempo, ela sofreu um aborto e perdeu o bebê, sem falar de mim...
Henrique fez uma pequena pausa antes de continuar:
— O meu ressentimento em relação a ela não foi menor que o seu. Durante todos esses anos, se não fosse pela presença da minha avó, muito provavelmente ela não teria suportado ficar na família Freitas.
Antes, ele nunca havia entendido o motivo de Estrela ter escondido a gravidez dele.
Mas, desde que conheceu Talita Gomes e pôde se colocar no lugar de Estrela para tentar compreender a situação dela, percebeu que, muito provavelmente, naquele momento ela já estava planejando o divórcio.
Ela não decidiu deixá-lo num ato impensado por causa da volta de Clara.
Pelo contrário, essa ideia talvez estivesse rondando a cabeça dela havia muito tempo.
— O motivo de eu estar dizendo tudo isso é para que saiba que, mesmo deixando de lado o fato de que a culpa daquela época não foi dela, mesmo que ela estivesse errada, você já fez tantas coisas contra ela que a sua raiva deveria ter passado. Que tudo acabe por aqui.
— Muitas coisas têm a chance de serem resolvidas quando olhamos para trás, então não continue errando e acumulando um erro atrás do outro.
As palavras de Henrique chegaram ao fim.
Clara sentiu como se tivesse despencado num abismo de gelo. O último resquício de sorriso em seus lábios também desapareceu.
— Já está tarde, volte para casa logo. — disse Henrique.
Clara entrou no carro. Ao olhar para trás, viu que Henrique já caminhava em direção à Antiga Mansão.
Antigamente, quando Henrique a acompanhava até a saída, se ela olhasse para trás, sempre o via parado a distância, acompanhando-a com os olhos. Mas agora, as suas costas transbordavam indiferença.
Mais do que o ciúme por Henrique ter defendido Estrela, o que ela sentia naquele momento era apreensão.
Ela estava com a impressão de que havia uma mensagem oculta nas palavras dele.

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