Tereza pousou o celular e o ignorou.
Ao voltar para a casa, ela acompanhou a filha nos estudos de inglês como de costume, depois leu um livro ilustrado. Após dar o banho e colocá-la para dormir, Tereza sentiu mais uma crise de insônia.
Desde o dia do memorial, depois de escutar aquelas palavras sórdidas e cortantes no terceiro andar, a qualidade de seu sono havia despencado.
Passava das duas da manhã quando Tereza, finalmente caindo em um sono profundo, foi despertada pelo barulho do motor de um carro lá embaixo.
Dominada por uma irritação insuportável, decidiu que enfrentaria o marido para uma briga. Vestiu um robe e saiu da cama, indo direto para o topo da escada.
Nesse momento, as luzes da sala se acenderam. O motorista Valdemar e o assistente Eduardo carregavam Norberto para dentro, sustentando-o um de cada lado.
Norberto mal conseguia ficar em pé. Estava sem paletó, usando apenas uma camisa cinza com colete, exalando um cheiro tão forte que parecia ter tomado banho de bebida.
— Desculpe, senhora, por incomodar o seu descanso a esta hora. — Eduardo, ao notar Tereza de robe no topo da escada, tratou de se desculpar: — O Diretor Cardoso acabou bebendo um pouco demais com uns investidores, não conseguimos impedi-lo...
Tereza cruzou os braços e ficou observando a cena lá de cima com um olhar altivo.
Sob a luz acesa, não restara nada daquele herdeiro da Família Cardoso que sempre demonstrava controle absoluto e postura impecável. Ele agora parecia quase derrotado e patético.
— Eduardo, peço o favor de ficar e cuidar dele. No armário da sala de jantar tem chá e remédio para ressaca.
Após proferir essas palavras, ela virou as costas e retornou ao quarto, sem o menor sinal de que desceria para ajudar ou prestar cuidados.
Eduardo piscou, em completo choque.
O motorista Valdemar também arregalou os olhos, surpreso.
Antigamente, a senhora não agia assim. Se o Diretor Cardoso bebesse além da conta, ela seria a primeira a descer correndo para checar e assumir a responsabilidade de cuidar dele.
A consciência de Norberto parecia ter retornado em parte e as palavras de Tereza ecoaram em sua mente. Apertando as têmporas e largado no sofá, ele instruiu Eduardo: — Não atrapalhe o sono da minha mulher. Você fica...
Não havendo outra opção, Eduardo ficou e procurou o remédio na sala de jantar.
Depois de tomar o remédio, Norberto foi levado de volta ao quarto de hóspedes que vinha ocupando. Eduardo tirou os sapatos do chefe, cobriu-o com o cobertor e acabou pegando no sono encolhido no sofá do aposento.
Na manhã seguinte, Tereza acordou pontualmente. Aplicou uma maquiagem caprichada e escolheu roupas adequadas. Fez o mesmo com Delfina, arrumando-a perfeitamente. A garotinha colocou sua mochilinha com o nome da escola e deu um rodopio de felicidade. — Mamãe, estou bonita? Vou lá mostrar para o papai.
Era o dia de apresentação de Delfina na escola. Ela transbordava alegria, sem sinal de mau humor matinal. Carregando sua mochilinha e saltitando de empolgação, empurrou a porta do quarto do pai.
Eduardo acordou em um solavanco de susto e deu de cara com a pequena figura na porta.
— Sr. Eduardo, o que faz no quarto do meu papai? — Com um olhar intrigado, a menina correu para a cama a fim de ver Norberto. Assim que se aproximou, tapou o narizinho. — Papai, você está com um cheiro muito forte de bebida. É fedido!
Despertado pela voz da filha, Norberto sentou-se na cama, massageando a cabeça.
— Certo, descerei para falar com ela. A senhora está de saída? — Eduardo se permitiu intrometer com a pergunta a mais.
Tereza acenou levemente a cabeça. — É o dia de apresentação da Delfina na escola.
O rosto infantil estava carregado de aflição. — Mamãe, já que o papai não pode ir hoje, você me leva sozinha, por favor.
— Sim, vamos. Não podemos nos atrasar.
Pondo-se em pé, Tereza entrelaçou a própria mão à da filha e tomou o caminho da escada.
Dona Lígia já servira o café da manhã e as duas tomaram a refeição antes de entrarem no carro e partirem.
Durante o percurso, a sombra de ansiedade ainda marcava as feições da menina.
— Mamãe, o papai está doente. Nós devíamos ter ficado em casa para cuidar dele até que ele se recupere. A gente sempre fez assim... — murmurou em voz baixa.
O peito de Tereza comprimiu-se. Era verdade; se no passado Norberto sentisse o menor desconforto, fosse uma dorzinha de cabeça ou febre, ela era a primeira a largar tudo. Por vezes, até tirava uma folga para zelar por ele.
— Delfina, o seu papai já é bem crescido. Além disso, o tio Eduardo está lá com ele. Não vai acontecer nada de ruim.
Inclinando a cabeça para ponderar, a pequena questionou: — O Sr. Eduardo vai cuidar direitinho dele, não vai?

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