Delfina, com os olhos rasos d'água, agarrou-se fortemente ao pescoço da mãe com as duas mãozinhas, esfregando o rostinho no colo dela sem parar. Parecia que apenas sentindo o cheiro familiar da mãe conseguia acalmar o seu medo avassalador.
Tereza, ao observar a criança tomada por tamanho desespero, sentiu a garganta dar um nó e as lágrimas escaparem quentes pelo seu rosto.
Foi impossível sufocar aquela vulnerabilidade repentina, permitindo que o lamento salgado se misturasse à dor massacrante de presenciar a angústia da filha.
A ira estrondosa que ardera minutos atrás evaporou sob as chamas geladas da fragilidade estampada no rosto da menina.
Tereza decidiu ignorar a existência daquele vestido apodrecido pelas memórias, varreu da mente a ideia patética de fazer interrogações desgastantes e sepultou as engrenagens instintivas de entrar num duelo imbecil com Hera.
Caçar a verdade num pântano iluminado era perda de tempo total. A sujeira já refletia sobre as águas plácidas do espelho da sua cara.
Se eles possuíam o tesouro sagrado para velar em segredo, que o preservassem a sete chaves de forma intacta no escuro de suas vidas fétidas.
Ela se negava a ser parte atuante num roteiro cômico.
A escuridão abraçou a paisagem lá fora com maestria. Quando o relógio demarcou as dezoito horas transcorridas, o chiado cortante de borracha esmagando o cascalho do carro do lado de fora assinalou que o asfalto fora domado pelo regresso.
Norberto penetrou na residência abrigado nos tecidos negros espessos do seu sobretudo imponente.
Tereza havia fixado âncoras tranquilas no tapete principal da sala para amansar Delfina nas lidas da fluência e pronúncia dos verbos ingleses.
— Papai! — A vocalização estridente rompeu alegre no aposento e a silhueta da herdeira alçou o voo rasante em busca dos joelhos enrijecidos recém paralisados ali na soleira.
O corpo maciço fletiu num movimento complacente num esgar carinhoso, escancarando a muralha peitoral num acolhimento arrebatador focado em içar a descendente rumo ao espaço aéreo superior do ombro:
— O que você inventou o dia todo para gastar energia? O papai acabou atolado com planilhas chatas e te deixou isolada. Que tal sairmos para matar a fome com um jantar sensacional agora à noite?
— Eba! A mamãe vai com a gente? — Os passeios eram cobiçados fervorosamente pelas grades rotineiras estagnadas de um confinamento estático entediante diurno.
As pálpebras viraram como faróis na rotação dos olhos afixados em Tereza e o inquérito ressoou baixinho na garganta espessa e imponente do provedor masculino:
— Quer vir com a gente?
Tereza desferiu a navalha monossilábica apática blindada sem oscilações vocais:
— Não vou.
Ele estagnou as sondagens invasivas silenciando por inteiro e manteve os fotorreceptores fixos sugando silenciosamente os pormenores ocultos das texturas brancas incomuns refletidas na tez dérmica resfriada:
— Aconteceu alguma coisa? Está se sentindo mal do estômago?
A mulher desceu a mira visual bloqueando o horizonte fixando o abismo particular das redes pixelizadas não abalando as suas pestanas do visor digital para replicar de imediato:
— Não.
A conduta subzero paralisou o resgate empático na origem sufocando os laços afetivos que pudessem criar ligações indesejáveis.
Os supercílios do gigante executivo trincaram as bordas. Mas a fala ensaiada no gogó para arranhar os lábios capotou asfíxica ao avistar Tereza erguendo o mastro corporal de sobressalto no piso, pisando degrau por degrau rumo ao piso superior e atirando, do alto das barreiras amadeiradas debaixo da sua soberania imponente vertical perante Norberto, o mandato definitivo e inegociável:
— Se vai sair com a Delfina, cuide dela pessoalmente. Não delegue a responsabilidade de olhar por ela a mais ninguém do bando.
A face escultural perdeu os traços rosados na alteração química interna disfarçada fracamente.
Ao que tudo indicava a indireta cortante das profundezas sarcásticas bateu fundo na carapuça sem blindagem desferindo um "uhum" engasgado e pontual:
— Eu cuidarei muito bem dela.
E, esgotado o estoque tolerável das convenções falsas, a subida aos céus silenciosos do segundo piso continuou a marchar no seu ápice indiferente, atirando no poço amargo que esganava com os grilhões a cavidade respiratória masculina enforcada.
— Papai, a mamãe deve estar muito cansada do trabalho. Que tal comprarmos um presente para animar ela hoje à noite? — Os globos cintilantes brilharam feito diamantes polidos.
A piada infantil da filha trouxe a descompressão torácica na forma leve num chacoalhão risonho rasgando a tristeza enjaulada temporariamente nas grades ósseas:
A deusa perspicaz identificou e farejou as mazelas alheias da coitada de chofre virando os canhões nas cordas vocais contra o irmão abandonado do falecido fugitivo em cena:
— O Gregório anda muito ocupado ultimamente? A gente já chamou ele para sair várias vezes, e a desculpa é sempre a agenda abarrotada com o trabalho.
O sacudir ombral ignorante veio pronto com alarde conformista vindo das bocas levianas do irmão sanguíneo inútil de plantão que expeliu:
— Meu irmão é viciado em trabalho, só isso. Nisso, ele e a Dra. Leal são idênticos nas prateleiras dos insanos ambiciosos de sucesso e glória nas madrugadas insones dos burocratas malucos viciados nos cifrões.
As musculaturas bochechudas do lado de lá repuxaram tristes uma simulação labial pífia disfarçando a amargura da solidão real inegável do fanatismo laboratorial do namorado, mas a indagação era real; a única justificativa das calçadas ausentes seria as contas altas nos papéis a assinar fora da noite gélida presente e social?
A intercepção neural dos vocábulos na cuca do Norberto provocou chuvas ácidas escurecendo o visor córneo ao extremo e instigando tempestades raivosas revoltas enjauladas com chaves nos bueiros dos pensamentos destrutivos escondidos dos holofotes no esconde-esconde psíquico mental fadigante perante todos reunidos.
A cascavel preparou o guizo de propósito para atirar os cacos vocais intencionais com veneno amargo de novo sem receio do corte da guilhotina alheia nas orelhas furadas a sangue frio das intrigas falsas:
— A Tereza é diferente do Gregório. Ela nunca foi do tipo de pessoa que se enturmava ou se divertia conosco no nosso círculo íntimo. Já o Gregório é nosso parceiro e veste a camisa da mesma gangue há mais de uma década unida em peso para as aventuras todas na vida boa e cara dos vira-latas ricaços que somos e ele não falha assim do nada, como regra na tábua!
A martelada derradeira solidificou estática os polímeros fisionômicos desnutridos de alegria e esperança na Mafalda, engessada no gelo polar das verdades que espinhavam os peitos todos escancarando vereditos absolutos expurgados nas entrelinhas para cego ver, e burro decodificar.
O abismo recluso trancado do sujeito em xeque estava interligado umbilicalmente sem contestações pela pedra dura inadequada de inércia chamada Tereza inaptada perpetuamente nos laços afetivos globais deles nas rodas sociais alheias fúteis das bebidas caras sem vínculos solidificados?
Os garfos seguiram apunhalando e as bocas mastigaram no pântano mudo enveredando a prosa na mesa farta num desfile caótico pragmático com assuntos ocos sobre escritórios e blá blá sem valor monetário em horas de relógio arrastado chato monótono infinito.
A paciência foi devorada e Delfina impulsionou os braços finos alongados acionando o microfone acústico privado diretamente para a porta sensorial superior canicular do patriarca:
— Papai, vamos logo comprar o presente da mamãe de uma vez? Senão as lojas do shopping vão fechar na nossa cara sem perdão.
A agonia implorada bateu no martelo ditatorial clemente masculino que curvou as bochechas risonhas em conformidade cega total perante o rei sem contestações absolutas infantis:
— Tudo bem, já estamos na hora de ir andando.
A lâmpada negra escavada ocular piscou cintilante no fosso. Maio batia na campainha. Três do maio assinalava e selava os ventos de aniversário nupcial cravado nas rochas. Seria, de facto, honroso providenciar aquisições simbólicas valiosas adequadas ao papel jogado de fachada falsa de marido bom atencioso perfeito nas prateleiras das fofocas correntes a pagar pelas noites de luto solitário forçado sem cama farta de carinho noturno marital falho.

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