Ele dissera que foi encontrar a doadora e que, na mesma noite, a pessoa adoeceu e precisou ser operada.
E a única pessoa capaz de causar tamanho alvoroço na matriarca, carregando aquele sobrenome...
Luana apertou o celular, os nós dos dedos rígidos:
— O nome da paciente é Dionísia?
— Sim.
Fausto respondeu, atônito com a intuição dela.
Como se a última gota de vida lhe fosse arrancada, Luana perdeu o chão, cedendo ao peso do próprio corpo.
Sua mente mergulhou em um zumbido surdo. Tudo era cinzas e caos.
— Srta. Luana...
Do outro lado da linha, Fausto a chamou repetidas vezes, sem resposta.
Depois do que pareceu uma eternidade, o vazio nos olhos dela recuou e a lucidez retornou.
Luana forçou os batimentos a se acalmarem. Seus lábios desbotados mal se moveram:
— O que mais descobriu? Continue. Estou ouvindo.
— Usei meus contatos para conseguir o prontuário dela no hospital. O documento atesta que as funções corporais estão em um estado deplorável. Consultei um especialista, e ele confirmou que o corpo de Dionísia precisou ser quase totalmente reconstruído. Em outras palavras, ela sofreu um acidente de proporções catastróficas.
Fausto falou de forma metódica, sabendo da gravidade e da importância de expor cada detalhe a Luana.
— Seguindo esse rastro, investigamos a família Penha em sigilo. Descobrimos que Dionísia sofreu um grave acidente de carro recentemente. Dizem que ela teve uma discussão intensa com o irmão, saiu de casa transtornada e acabou batendo o veículo. O nível de conflito foi tanto que Fabiana, a mãe dela, esfaqueou o próprio filho por conta disso. A fraqueza física de Dionísia não é uma farsa. Sebastião e Dante não mentiram.
A ligação chegou ao fim.
Mas cada palavra de Fausto continuou orbitando a mente de Luana, como corvos sobrevoando ruínas.
Demorou a assimilar o golpe. A mulher que carregava a salvação de seu filho, Sílvio, era justamente Dionísia.
O destino beirava o macabro. Entre bilhões de pessoas no mundo, o único sangue compatível com a carne de sua carne pertencia a Dionísia.
Não era de se admirar que Sebastião mantivesse tudo em absoluto silêncio.
Acorrentada à própria angústia, Luana permaneceu sentada perto da janela. O peito apertado, refém de um medo sombrio.
Sua respiração tornou-se frágil, superficial.
Intocável em sua indiferença, Luana não se ofendeu:
— É apenas um gesto. Afinal, você precisa de um corpo forte antes de doar a medula ao meu filho.
Dionísia estreitou os olhos, venenosa:
— Não estou salvando o seu filho. Estou salvando a minha felicidade, o meu futuro. Estou salvando o filho do Antônio.
Um sorriso sem vida curvou os lábios de Luana. O olhar era puro gelo:
— O filho do seu amado Antônio também rasgou o meu ventre ao nascer. Srta. Dionísia, seja qual for a sua condição, apenas exija.
Luana parecia disposta a ser esfolada viva se fosse necessário.
A expressão de Dionísia endureceu:
— Condição? O que quer dizer com isso? Luana, você me subestima. Quem julga o outro pelas próprias falhas, revela apenas a podridão da própria alma.
No instante seguinte, ao captar uma silhueta alta se movendo pelo reflexo do vidro, a voz de Dionísia tornou-se doce e frágil:
— Pelo Antônio... Pelo pequeno Sílvio... Não me importaria de doar minha medula. Entregaria até minha própria vida, de bom grado.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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