Quando Luana invadiu aquele espaço esbranquiçado, Vasco drenava a agonia em uma maca contornada de soro, e a face dele revelou os rasgos da dor contida. Surpreendido pela neblina de Luana, os dedos logo extinguiram os resíduos digitais do TikTok na tela:
— Por que você está aqui?
O olhar inexpressivo de Luana percorreu a exposição mutilada do sangue escuro que manchava as ataduras curativas. O rombo não era monumental, mas o mar rubro estilhaçado que gritava do ferimento cravava nela um pavor devastador.
A ponta de seu nariz encheu de dor aguda e as lágrimas contidas a estilhaçaram por dentro até a última partícula:
— Obrigada.
O silêncio das próprias ruínas ditava que Luana não sabia mais qual migalha arremessar aos sacrifícios de Vasco.
Vasco rasgou as órbitas atentas pelas frestas da porta e, do fundo, avistou recortes dos ombros sombrios do homem; o preto absoluto do abismo era o luto habitual com que Sebastião se adornava.
Sebastião carregava o silêncio protetor dela ali.
— Luana, não dirija a sua alma a isso; eu suporto.
Uma enfermeira interrompeu com compressas gélidas sobre os resquícios da dor. Ante o sobressalto rígido nos cenhos dele, Luana esgueirou rogos transparentes de cuidado até a moça de jaleco branco despejar seu sorriso infeliz:
— Sr. Vasco, que amor protetor a sua namorada guarda nesse olhar.
Os lábios corados saltaram nos traços enfraquecidos de Vasco num rubor infeliz; e, notando que a pálpebra apreensiva de Luana disparara as sentinelas em pânico contra o som no corredor, defendeu rudemente:
— Nós não passamos de uma amizade arruinada.
Aferindo os últimos contornos médicos, o jaleco se eclipsou no umbral.
As consequências profanas e indevidas daquelas palavras abateram a atmosfera do cômodo com poeira incômoda.
Luana ditou um gélido limite:
— Preserva os teus dias. Eu abandono este recinto.
Ela cortou a sombra de sua essência por entre os rodapés brancos, calando qualquer réplica da cama do homem.
As juntas ásperas de Sebastião estrangulavam um jogo inútil no saguão envernizado, e quando as órbitas detectaram a carcaça de sua mulher, abortou tudo bruscamente num movimento controlador. A sua silhueta subiu imponente, as passadas do couro arrastando todo o poder em direção ao portal fosco dos andares.
Luana prosseguiu às margens da dominância, engaiolada com a fera de terno pelo visor enclausurado em metal, encarando os numerais derretendo em vermelho escaldante. No poço do edifício comercial, com o toque de sino irônico, o imperador vazou nas passadas secas e Luana acompanhou os sapatos opressores.
Afogados sobre os pedais blindados, perfuraram o horizonte opaco rumo a Jardins do Perfume.
Transpassadas as portas suntuosas, as pernas altivas já demarcavam a superioridade dos aposentos escuros. Luana proferiu as sentenças domésticas para os subalternos opacos do saguão de Estela, logo engolindo o vácuo gelado dos degraus nas passadas trituradas atrás do terno possessivo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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