— Você esteve na Cidade do Trono esse tempo todo?
A cabeça de Luana girava. Com o excesso de álcool, sua língua já começava a tropeçar nas palavras.
— Sim. — Vasco respondeu, arrancando a garrafa das mãos dela: — Chega de beber. Eu vou levá-la para casa.
Luana tomou a garrafa de volta num solavanco:
— Quem disse que eu vou voltar? Eu quero beber. Hoje, só saio daqui carregada. Vasco, sente aí e beba comigo.
Vasco franziu o cenho, a preocupação vincando sua testa.
Não era medo. Era apenas o fardo de saber que ela havia se reconciliado com Sebastião. Seu papel, agora, era apenas o de um cão de guarda silencioso, velando pela segurança dela nas sombras.
Mas, vendo que ela não arredaria o pé, Vasco não teve escolha a não ser sentar ao lado dela e abrir uma garrafa para si mesmo:
— Tudo bem. Eu bebo com você. Até que a última gota seque.
Uma garrafa atrás da outra. Os dois beberam até a madrugada, até o momento em que Luana já não conseguia se manter em pé, e Vasco a puxou do sofá pelo braço.
Vasco pagou a conta e a amparou em direção à saída.
Assim que pisaram fora do bar, esbarraram em um rosto familiar. Benito.
O encontro não tinha nada de acidental, a julgar pela forma como os olhos de Benito crivaram Luana por um longo tempo.
Vasco fez um aceno de cabeça em cumprimento e preparou-se para conduzir Luana para longe.
Benito cortou-lhes o caminho. Ignorando Vasco, dirigiu-se diretamente a Luana:
— Senhorita Luana, o senhor Antônio mandou buscá-la para voltar para casa.
Com Zaqueu internado no hospital, incapaz de servir a Sebastião, Benito fora convocado de Porto Fundo para substituí-lo.
— Casa?
Luana mastigou a palavra.
Aquele termo carregado de significados especiais.
Que casa ela tinha? Seu verdadeiro lar havia sido reduzido a cinzas há cinco anos.
Reprimindo as lágrimas que ameaçavam transbordar, ela se valeu da embriaguez para encenar um teatro. Apontou o dedo na cara de Benito:
— Quem é você? Saia do meu caminho. Suma!
Dizendo isso, não poupou forças para empurrar Benito para o lado.
Quando Benito tentou alcançá-la novamente, Vasco já a havia acomodado no banco do passageiro. O motor roncou e o carro desapareceu na noite.
Benito entrou no próprio veículo às pressas, iniciando uma perseguição frenética atrás de Vasco.
Ela engoliu a náusea amarga que subia pela garganta.
Luana examinou a decoração ao redor e o desconhecimento do lugar a fez pular da cama num sobressalto.
Coincidentemente, Vasco entrou no quarto naquele instante.
Ao notar a expressão de pânico dela, deu um sorriso reconfortante:
— Te assustei? Este é o meu quarto.
Para evitar mal-entendidos, ele se apressou em explicar:
— Ontem à noite você bebeu demais, estava quase inconsciente e se recusava a ir para casa. A única saída foi ceder meu humilde aposento para você.
A verdade é que Luana não estava em coma alcoólico, mas usou o álcool como escudo para não voltar ao Jardim de Sândalo. No fundo da sua alma exausta, a última coisa que queria era encarar o rosto de Sebastião.
E Vasco surgiu exatamente quando ela havia secado metade das garrafas.
— Você disse que ficou na Cidade do Trono esse tempo todo. Não está mais sob as ordens do Benício Coelho?
— Estou, sim.
O apartamento de Vasco era um modesto estúdio. A cama ficava a poucos passos da cozinha compacta. Com xícaras alinhadas na bancada, ele moía os grãos enquanto respondia a Luana:
— Tenho um trabalho temporário por aqui, então me instalei. Naquele dia em que tentei falar com você, o senhor Antônio pareceu detestar a ideia. Por isso, nunca mais entrei em contato.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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