Renata não tinha do que se envergonhar. Como não suportava ser encarada daquele jeito, como se ela o tivesse traído,
ela franziu as sobrancelhas delicadas, deu meia volta, e preparou-se para sair.
Com um olhar sombrio, Wilson esmagou o cigarro e correu atrás dela, bloqueando a sua passagem com os seus longos braços, dizendo em voz profunda:
— Renata, nós precisamos conversar direito! Temos que esclarecer as coisas recentes!
Conversar direito?
Renata quase caiu na risada de raiva ao escutar isso.
Ele já havia a atirado no abismo para arranjar uma vaga para Sabrina, e sobre o que mais eles tinham para conversar?
Renata respirou fundo, delicadamente, e virou o rosto para encará-lo.
— Wilson, você já fez tanto pela Sabrina, então fique logo com ela. Pare de me encher o saco, por favor.
Wilson franziu o cenho, sem entender:
— O que você disse?
Ele se aproximou mais. Seu sobretudo leve e gelado estava quase tocando na mão dela.
Com os olhos negros pregados no rosto branquinho, a voz mais grave ainda, ele repetiu:
— Renata, o que você quer dizer com isso? Seja clara.
Continuava fingindo.
Renata empurrou os ombros dele, friamente, e respondeu, de forma exausta:
— Não quero dizer nada. Me larga, agora já está muito tarde, cada um vai pra sua casa, e pronto.
Ao ver o desprezo que estampava a sua cara, o estômago de Wilson ferveu. Em um movimento leve de força, ele a prensou, de repente, contra o muro atrás deles.
— Sem sentido, sem ter o que conversar. Mas com o Cristiano tem, né? ... Aqueles sorrisos todos pra ele!
Os dedos de Renata, que o empurravam, pararam.
Até que fim ele tinha estourado a bolha e chegado a este ponto. A verdade por trás dele ficar na sua cola era a típica posse masculina!
Renata soltou uma risada cheia de escárnio.
Ela ergueu o olhar para ele.
Sob a escuridão da noite, aquele rosto bem esculpido parecia ainda mais charmoso.
Ela passou as mãos pelo rosto dele com suavidade, e a voz soou baixinha:
— Wilson, por um acaso você descobriu que eu estaria aqui, e aí achou que eu tinha vindo me encontrar com outro homem, para só então vir me caçar?
Wilson estreitou os olhos e não respondeu.
Mas esse, com certeza, era o motivo. Ao perder ela de vista, a aflição bateu fundo. Tudo por medo de que ela tivesse ido de novo procurar Cristiano.
Renata já imaginava.
— Posso ir aqui! — declarou Renata num tom seco.
O rosto de Wilson escureceu: — Renata, me acha com cara de seu motorista?
Renata ajeitou a roupa, lançou-lhe um olhar de esguelha, e soltou uma risada forçada: — Pode me deixar sair também!
Aquelas palavras amargaram na hora.
Wilson fechou a porta com uma batida, deu a volta, acomodou-se no banco do motorista e pisou fundo no acelerador, disparando em direção a Baía Serena.
No trajeto, os seus olhos varriam esporadicamente o retrovisor. A imagem no espelho mostrava a mulher exausta, encostada no encosto com os olhos semicerrados e relaxada. Parecia um gatinho... Aquele tipo que arranca a vontade de querer abraçar, para mergulhar numa nuvem de conforto.
O pomo de Adão de Wilson subiu e desceu algumas vezes. Apertou as mãos, que se firmaram no volante.
Ali, ele nem sabia mais dizer: Era a beleza arrebatadora da mulher, atiçando os seus desejos, ou o próprio desejo crescendo fora de proporção!
A simples presença calada e paralisada da mulher já deixava ele com a tentação de voar em cima dela!
Renata, porém, passava longe de reparar nas péssimas ideias dele. Sua cabeça exausta apenas focava em organizar as suas coisas para quando chegassem de volta à Baía Serena.
Teria de levar consigo um vestido.
Para vestir na noite do banquete, amanhã.
Ainda teria que levar o seu álbum de pintura; passado o concurso, partiriam para Sulina.
O álbum era a sua preciosidade, os seus verdadeiros sentimentos da adolescência gravados, e mesmo em seus piores picos de fúria e ressentimento, nunca se atreveu a desfazer-se dele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Três Anos de Mentira, Três Dias para Partir
Acho q uma história dessa merecia um final melhor, mais explicado e com mais detalhes!...