"Valentina"
Enquanto caminhávamos em direção à casa eu apertei a mão do Dante. Ele olhou para mim e eu balbuciei a palavra "calma" para ele, o lembrando que não deveria deixar que o Otto o tirasse do sério. Mas eu sabia que era pedir demais, porque eu já estava sem paciência com aquele encostado. Assim que entramos, o Otto veio atrás.
- Dante! Dante! - O Otto gritou atrás de nós e eu me virei para encará-lo.
- O que é, Encostado? Veio fazer o que atrás de nós? Veio atrás da humilhação?
O Otto ainda vestia a camisa social do terno, mas estava sem o paletó, o branco do tecido agora tinha umas gotículas de sangue provenientes do lábio rachado pelo so'co que ele levou do Dante. Mas o Otto parecia outra pessoa, estava com as narinas dilatadas, os olhos injetados de ódio e a respiração ofegante. A veia no pescoço dele saltava nitidamente.
- Meu assunto não é com você, dançarina! - Ele grunhiu. - Eu vou relevar a sua reação primitiva que você teve ali fora, Dante, porque esse tumor que você tem na cabeça já está afetando o seu cérebro. - O Otto apontou.
Eu senti o meu corpo tencionar e o sangue ferver na mesma hora. Desgrudei da mão do Dante e dei dois passos à frente, encarando o Otto de braços cruzados.
- Você acha que sabe muito sobre o histórico de saúde do meu marido, não é, Encostado? - Eu sorri cinicamente. - Eu me pergunto por que é que você está tão interessado nisso. É engraçado porque... olha para o meu marido, ele é a imagem da saúde.
- Você não contou para ela, Dante? - O Otto deu um riso curto, a maldade se insinuando ali.
- Não se preocupe com o que ele conta pra mim. Se preocupe com o que você não está sabendo. Mas... assim... você se preocupa com a saúde do meu marido mais do que ele mesmo e isso é realmente interessante, afinal ele não está preocupado. E você sabe porque ele não está preocupado? - Eu abri o meu melhor sorriso. - Você não sabe!
- Do que ela está falando, Dante? - O Otto estreitou os olhos.
- Não é da sua conta, Encostado! Aliás, já arrumou um emprego novo? Fala com o inútil da CLT, vai que tem uma vaga aberta para motorista de carrinho de clube onde ele trabalha. - Eu provoquei o Otto e ele ferveu de raiva.
- Cala a boca, sua dançarina pornográfica de boate! - O Otto latiu de forma histérica. - Eu não estou falando com você, sua barraqueira vulgar! Eu estou falando com o meu primo! Então, não se meta!

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