"Valentina"
Eu estava um pouco nervosa e o ambiente da sala de procedimentos da clínica de fertilização não ajudava muito a me acalmar. O lugar era o que tinha que ser, estéril, frio e dominado por monitores eletrônicos e equipamentos médicos. A única coisa ali que destoava da rigidez hospitalar era o calor que emanava da mão do Dante segurando a minha.
Eu já estava deitada na maca, pronta para o procedimento de implante do meu embrião e uma parte de mim ainda mal acreditava que eu realmente estava fazendo aquilo, enquanto a outra parte estava ansiosa para se tornar mãe, porque o Dante acendeu em mim esse desejo e a lista de motivos para que eu fizesse isso estava aumentando diariamente. Um filho! Um ser que dependeria de mim por um tempo, mas que eu deveria preparar para ser autônomo e independente. Mas uma parte considerável do meu coração se animava com a ideia de que eu não estaria mais sozinha e foi o Dante quem me fez ver a situação por esse ângulo. E uma outra parte enorme estava ansiosa por ter um filho dele, um pedacinho dele que ficaria comigo quando ele não estivesse mais. Com os meus pensamentos voando na velocidade de um jato, eu sentia o meu coração bater em um ritmo de ansiedade e expectativa que eu mal conseguia controlar.
No entanto, eu não era a única ansiosa. Eu olhei para o Dante, impecável no seu terno sob medida, as mãos dele estavam perfeitamente firmes segurando a minha com uma delicadeza comovente, enquanto o polegar acariciava a minha pele. Mas toda aquela superfície de calma controlada era apenas disfarce para não demonstrar fraqueza. Ele estava ansioso. Eu percebia pela forma como ele tentava fixar o olhar em um ponto aleatório e quando perdia o foco suas pupilas se movimentavam rápido procurando outra âncora.
O procedimento todo pareceu mais uma consulta de rotina do que o grande evento de uma tentativa de gestação. O médico concluiu a transferência dos embriões com uma maestria e uma precisão impecável e eu fiquei pensando quando ele faria um floreio como um artista que acaba de se apresentar. Eu quase ri quando ele fez, o floreio dele foi apontar para a pequena faísca brilhando na tela do ultrassom com um sorriso convencido.
Depois de algumas orientações, ele nos deixou a sós na sala de recuperação. Foi no milésimo de segundo em que a porta se fechou que o verniz de homem calmo, frio e intocável do Dante se quebrou por inteiro. Ele se inclinou sobre o leito hospitalar e, para a minha absoluta surpresa, os olhos dele se encheram de lágrimas. Ele se abaixou e depositou um beijo demorado, doce e reverente contra a minha barriga enquanto as lágrimas molhavam o seu rosto.
- Meu filho! Você é a minha vida inteira. Eu gostaria de ter mais tempo para você, mas eu te prometo que você terá uma mãe incrível que vai compensar a minha ausência. - Ele declarou em um sussurro rouco e baixo.
Naquele momento eu percebi que um filho significava para ele mais do que ele deixava transparecer geralmente. Ele não resolveu congelar material genético só para resguardar a perpetuação da família ou decidiu ter um filho unicamente para garantir um herdeiro, ele realmente queria um filho. Mas... por quê? Eu não sabia. Mesmo assim, senti o meu peito explodir em um afeto avassalador, as minhas lágrimas brotando com a emoção do momento e tudo o que ele significava.
Aquele bebê era a condição de um contrato, mas naquele momento já não significava uma transação financeira ou blindagem patrimonial fria; ele era o fruto legítimo do entrelaçamento das nossas vidas que mudaram drasticamente no minuto em que nossos mundos colidiram. Aquele bebê já não estava sendo gerado para garantir patrimônio, ele estava sendo gerado porque era desejado nos nossos corações, para ser amado e querido.
O Dante me abraçou e nós ficamos presos na nossa bolha de silêncio, carinho e lágrimas derramadas. E nós ficamos ali, conectados tão profundamente, até que o médico me liberou. Aquele momento sem palavras, mas de profundo afeto ficaria gravado na minha memória para sempre como um dos nossos melhores momentos.


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