"Dante"
O interior do tubo de ressonância magnética avançada com contraste operava com ruídos mecânicos e estalos eletrônicos que martelavam os meus sentidos há horas. Eu me sentia enterrado vivo e tendo que ouvir sons dos combates espaciais de "Star Wars". Eu passei a terça feira inteira sendo arrastado por uma verdadeira maratona hospitalar pelos laboratórios do hospital. Mapearam não apenas o meu cérebro, mas o meu organismo inteiro fatia por fatia, coletaram tubos de sangue e me bombardearam com testes neurológicos, técnicas avançadas de ressonância e até testes genéticos.
Quando a equipe técnica do Dr. Jonathan Vance finalmente me liberou e me conduziu de volta para o quarto de internação no início da noite, o meu corpo estava exausto e a minha cabeça parecia ter ficado dentro da máquina de ressonância magnética. Eu me deitei obedientemente na cama hospitalar, sentindo o peso do fuso horário e do desgaste físico cobrarem o preço da minha maratona médica.
Mas eu ainda precisava ligar para a Valentina. Precisava ouvir a voz atrevida dela e saber como ela estava depois daquele escândalo da Agatha. Eu estendi a mão para pegar o celular sobre a mesinha de cabeceira e antes de ligar eu verifiquei as mensagens. Várias do Murilo contando tudo o que tinha acontecido. E enquanto eu assistia ao vídeo da Vó Isabel, o meu organismo apagou antes que o vídeo chegasse ao fim e eu pudesse discar o número dela. A exaustão daquele dia e a noite anterior passada em claro me arrastou para um sono profundo antes que eu pudesse ouvir a voz dela.
Quando os primeiros raios de luz da manhã de quarta feira atravessaram as imensas vidraças do quarto, eu abri os olhos. Eu havia dormido com o celular nas mãos, eu me lembrava, mas onde ele estava? Eu me sentei na cama e olhei para o lado, o aparelho estava sobre a mesinha lateral. Com certeza alguma enfermeira atenciosa. Eu precisava ligar para a Valentina. Mas antes que eu alcançasse o aparelho, a porta do quarto foi empurrada e o Dr. Jonathan Vance entrou.
O respeitado chefe de neurologia não trazia o seu habitual semblante neutro e apaziguador. A sua expressão estava carregada por um vinco de severidade e uma preocupação silenciosa tão profundas que as minhas mãos gelaram na hora. Ele tinha más notícias, eu podia sentir.
- Algum problema com os exames que eu fiz ontem, doutor? Eu não vou poder participar do seu estudo? - A minha ansiedade era tamanha que eu comecei a bombardear o médico de perguntas num inglês ansioso.
- Bom dia, Sr. Montenegro. - O médico entrou e puxou uma cadeira para se sentar em minha frente. - Espero que o senhor tenha conseguido descansar.
- Bom dia, doutor, desculpe a minha ansiedade. Sim, eu dormi muito bem. - Eu respondi enquanto tentava avaliar o que o médico poderia ter para me dizer.
- Sr. Montenegro, infelizmente precisarei deixá-lo em jejum novamente. Os dados iniciais dos seus exames apresentaram um resultado surpreendente e a minha junta médica se recusa a assinar o fechamento do prontuário sem que alguns desses exames sejam repetidos. - O Dr. Vance revelou de forma solene. - Há uma contradição inexplicável entre o padrão dos nossos resultados e os gráficos do laudo que o seu médico no Brasil assinou. Eu preciso que o senhor refaça a ressonância e o PET Scan com um contraste específico. Nós também vamos refazer os exames de sangue. Nós não vamos liberar o seu diagnóstico sem uma contraprova de alta fidelidade.
- O senhor está dizendo que o tumor avançou? - Eu perguntei, sentindo como se um punho de aço esmagasse o meu peito. - Eu tenho menos tempo do que pensei?

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