"Dante"
Eu estava sentado na beirada do leito com o corpo inclinado para frente, aguardando o veredito da minha vida. O Dr. Jonathan tirou os óculos de armação preta, suspirou fundo e me encarou com uma expressão atônita que fez o ar faltar nos meus pulmões por completo. Ao lado dele, o diretor do hospital tinha um ar de severidade, mas o vinco na testa indicava que algo os havia pego de surpresa. Eu não queria mais floreios clínicos. Eu precisava de respostas, dados palpáveis.
- Diga qual é o diagnóstico final de uma vez, doutor. O senhor não vai me assustar. - Eu pedi, demonstrando uma calma inabalável por fora, mas por dentro o meu coração estava prestes a explodir. - O tumor evoluiu? Eu estou fora do seu tratamento experimental? Quando eu vou morrer? Quanto tempo eu ainda tenho de vida?
- Você tem exatamente o mesmo tempo de vida que qualquer ser humano perfeitamente saudável pode ter, Sr. Montenegro. - O médico respondeu, a sua voz solene ecoando pelas paredes do quarto. Por um momento eu achei que havia esquecido o inglês e não havia entendido o que ele disse, mas ele continuou. - A junta médica concluiu o estudo dos seus exames. As suas imagens cerebrais estão cem por cento limpas. Sr. Montenegro, o senhor não possui nenhuma anomalia celular, nenhum glioma agressivo e nenhum tumor inoperável na cabeça. O seu cérebro está em perfeita saúde, aliás, o seu corpo inteiro está saudável. O diagnóstico terminal que assinaram no seu país é um equívoco completo.
O chão sumiu debaixo dos meus pés de uma vez só diante daquela informação. Eu fiquei completamente perplexo, estupefato e atônito, paralisado com os olhos arregalados, a minha mente entrando em um colapso violento.
- O quê…? Como isso é biologicamente possível, doutor? Os exames... a massa nítida no meu cérebro... - Eu gaguejei pela primeira vez em trinta e cinco anos de vida, a minha voz saindo em um fio melancólico de choque.
- A massa é perfeitamente nítida nos exames que o senhor nos entregou, mas aquele cérebro não é seu.
- Mas... como isso é possível? O médico que eu consultei é um excelente médico, o laboratório também tem excelente reputação. O senhor está me dizendo que o meu exame foi trocado?
O médico colocou as mãos nos bolsos do jaleco branco, o seu olhar se compadecendo da minha confusão monstruosa.
- O que aconteceu eu não posso afirmar, mas aquele exame não é seu. Sr. Montenegro, sabe porque o seu caso nos interessou tanto? - Ele perguntou e eu fiz que não. - Porque, de acordo com as imagens que o senhor nos enviou, o senhor já deveria estar com um lado do corpo paralisado, dificuldade na fala e uma perda cognitiva severa, com falhas graves na memória e sendo incapaz de planejar, organizar ou concluir atividades rotineiras, além de uma dor de cabeça extremamente forte e incapacitante, entre outras coisas. O senhor não apresenta nenhuma perda motora, cognitiva ou de fala. Então nós pensamos, ou o seu diagnóstico foi um equívoco laboratorial ou o senhor seria um caso raro de resistência ao tumor. O senhor não é um caso raro.
- Mas... eu passei os últimos meses sofrendo com tremores incapacitantes nas mãos, uma névoa mental severa, tonturas constantes e desmaios repentinos! Eu acordava à noite com uma sensação de morte, eu tive convulsões. Os vômitos... o Dr. Hércules Medina me disse que eram sintomas do tumor! Ele disse que ia piorar, que eu ficaria incapacitado...
- Sim, nós ficamos atentos aos sintomas que o senhor descreveu. E o senhor também disse que teve dias muito ruins e de repente tudo foi melhorando e os sintomas desapareceram.

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