"Valentina"
Se o Dante Montenegro achava que o seu silêncio cruel ia me transformar em uma perua chorona encolhida debaixo das cobertas na cama dele, ele estava muito enganado sobre a mulher que ele colocou dentro de casa. Eu me arrumei bem linda e fui primeiro para a holding, marcar presença como a Sra. Montenegro, CEO-in-training. E ele que não reclamasse, a ideia foi dele!
Eu entrei na holding com o meu melhor sorriso. Os seguranças da entrada agora se acotovelavam em fila para me receber. O Murilo e eu nos despedimos da Tati na recepção e marchamos para o elevador, seguidos pelos meus armários ambulantes. Mas o Murilo desceu dois andares abaixo da presidência e eu desembarquei sozinha no andar da presidência. Isso pareceu um pouco estranho, pois o Dante não estava lá. Era como entrar na casa de alguém sem a pessoa estar lá. Mas eu fingi costume e levantei a cabeça.
- Bom dia, Aline! Como você está? - Eu parei em frente à mesa da secretária.
- Bom dia, Sra. Montenegro. Estou bem. E a senhora está deslumbrante nesse terno vermelho. - Ela me olhou com um sorriso totalmente sincero.
- Ah, muito obrigada! Eu acho que vou sugerir ao Sr. Montenegro uma mudança nos uniformes de vocês. Esse pretinho é tão básico! - Eu comentei e ela deu uma risada que me fez rir junto.
- Eu sou super a favor de um pouco de cor. - Ela me respondeu animada. - E falando em Sr. Montenegro, eu tenho todos esses recados para ele, mas ele parece incomunicável. - Ela me olhou suplicando ajuda.
- O Sr. Montenegro está muito atarefado durante essa viagem, Aline. - Eu falei tentando disfarçar o meu aborrecimento. - Deixe os recados comigo, vamos ver o que eu posso fazer.
- Realmente o Dante parece bastante ocupado, Sra. Montenegro. Eu estou há dois dias tentando falar com ele. Até entenderia o silêncio se a senhora o tivesse acompanhado nessa viagem misteriosa, mas estando ele sozinho... - Eu me virei para ver de quem era a voz masculina atrás de mim e dei de cara com um dos conselheiros.
- Bom dia, Sr. Malta. Não tem nada de misterioso, o Dante viajou a trabalho. Está em Boston, várias reuniões, enfim... - Eu achei melhor não me prolongar, eu não sabia exatamente o que o Dante estava fazendo naquela viagenzinha, afinal eu também estava há dias sem falar com ele. - Mas eu posso ajudá-lo em algo, Sr. Malta?
- Na verdade eu gostaria de discutir com ele um nome para a posição do Otto que ficou vaga. Talvez a senhora saiba, o Dante já tem alguém para assumir o lugar?
- Ele está aguardando o final das auditorias na contabilidade e no financeiro, enquanto isso ele colocou o rapaz que era assistente do Otto para gerir o departamento e está avaliando o desempenho dele. É um rapaz muito simpático e eu acho que é muito competente, realmente espero que ele consiga essa promoção. Me desculpe a sinceridade. - Eu respondi de forma direta.
- Imagina, aprecio a sua sinceridade. Eu também gosto do rapaz. É meu sobrinho e eu justamente queria interceder em favor dele. - O homem sorriu para mim.
- Seu sobrinho? E o Dante sabe disso?
- Creio que não. Meu sobrinho é um jovem que tem as suas reservas, é um tanto sistemático, digamos assim para não chamá-lo de orgulhoso. Recusou a minha ajuda para conseguir o emprego e fez questão de não divulgar nosso laço familiar.
- Olha que rapaz inteligente! - Eu brinquei e o conselheiro deu uma risadinha. - O senhor tem tempo para um café? - Eu o convidei e ele aceitou prontamente.


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