"Dante"
Eu olhei para a Valentina e o meu peito se apertou. Eu estava ansioso, mas eu sabia que a maior carga estava sobre os ombros dela. Foi ela quem tomou injeções de hormônio, era ela quem teria que lidar com todas as mudanças físicas, era ela quem teria que deixar o trabalho de lado por um tempo. Ela estava se adaptando na minha vida. O mínimo que eu devia a ela era ser o seu conforto, então eu a puxei para um abraço e beijei a sua testa, acariciando as suas costas e procurando o que dizer, mas o médico encontrou as palavras antes de mim.
- Talvez eu não tenha sido claro o suficiente no dia do implante, vocês estavam com outros compromissos marcados e com um pouco de pressa e não fizeram muitas perguntas, pensei que não havia ficado nenhuma dúvida. Foi uma falha minha e eu peço desculpas por isso. - O Dr. Salvador explicou de forma gentil, ajeitando os óculos. - O que eu quis dizer é que hoje, nós verificaríamos os relatórios de dados e a necessidade de ajustes hormonais para a sustentação do embrião no endométrio.
- Nós saímos daqui correndo na segunda feira passada por causa da viagem do Dante... não fizemos muitas perguntas, mas eu jurava que o exame de sangue de hoje seria o resultado final.
- Desculpe, Dr. Salvador, foi minha culpa. Eu não deveria ter viajado na semana passada, Encrenca. - Eu afaguei as costas da Valentina e abaixei a voz para falar com ela. - Eu prometo que não vai se repetir, eu vou estar cem por cento nisso e nada mais vai desviar o meu foco.
- Você já está cem por cento nisso. Você tinha um compromisso e eu entendo, o mundo não para. E a culpa foi minha também, eu estava tão ansiosa que minha mente ficou em branco. - A Valentina respondeu deixando os ombros caírem e relaxando o corpo na cadeira com uma expressão triste.
O médico olhou para a Valentina de forma acolhedora e deslizou os resultados dos exames para nós, olhando para mim e para ela com um sorriso animador.
- Eu entendo a ansiedade de vocês, especialmente a sua, Sra. Valentina. Estar sob o efeito de todos esses hormônios é como estar em uma montanha russa radical, como diria o meu neto mais novo. - O médico ampliou o sorriso ainda mais ao falar do neto e arrancou um sorriso da Valentina. - No entanto… como nós colhemos o Beta hCG quantitativo hoje, no sétimo dia, o laboratório já detectou uma alteração sutil, porém extremamente positiva, nas suas taxas hormonais. - O especialista revelou, indicando uma linha no papel. - O índice marcou cinco vezes maior que o padrão para uma mulher que não está grávida. O que nós temos aqui, Valentina, é um indicativo de positivo precoce. O embrião deu o primeiro sinal de vida. Nós ainda não podemos cravar a certeza absoluta de protocolo porque essa taxa precisa dobrar de tamanho nas próximas quarenta e oito horas. Vocês têm todos os motivos do mundo para comemorar com esperança real!
Os olhos da Valentina voltaram a brilhar. O meu coração simplesmente parou de bater por um milésimo de segundo. Eu me sentia um homem morto há meses, sobrevivendo apenas pelas cartas ruidosas que a Valentina me mandava e com o claro intuito de deixar um filho como herdeiro. Mas ali, diante daquele papel fino, eu estava diante da vida, a minha que não estava se apagando e a que eu estava gerando com a Valentina. Essa constatação fez com que eu sentisse como se dois corações começassem a bater em mim em ritmos diferentes, mas ambos acelerados.
- Quer dizer que deu certo? - A Valentina perguntou com ânimo renovado.
- É o que tudo indica. Mas, eu vou marcar uma nova consulta para a próxima segunda e é nesta consulta que nós teremos a certeza absoluta. Até lá, nós vamos continuar mantendo alguns cuidados, mas eu vou anotar tudo para a senhora. - O médico sorriu.
- É... doutor... eu tenho algumas perguntas sobre a intimidade... - Eu falei, tentando perguntar sem causar um constrangimento.

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