"Dante"
Era bastante desconcertante encarar aquele homem, um médico respeitado, se debatendo em desespero e medo. Por longos meses eu acreditei que esperava a morte, assim como ele, e eu fiz de tudo para continuar sendo quem eu era até o fim, por isso eu compreendia o que ele sentia e como era difícil enfrentar o pânico de perder a funcionalidade humana. Felizmente para mim que aquele diagnóstico era uma fraude, ao contrário do Hércules.
No entanto, por mais que eu compreendesse e sentisse uma profunda solidariedade por ele, os segredos do Hércules eram pesados demais para serem sustentados por mais tempo e não havia margem para concessões. Ele não podia continuar exercendo a medicina. E, além disso, ele precisava me contar tudo o que sabia sobre o falso diagnóstico que me deu.
- Hércules, você sabe que eu compreendo exatamente a agonia de lutar contra o tempo. - Eu pronunciei devagar, mantendo o tom firme, mas conciliador. - Mas a minha solidariedade ao seu desespero de homem doente morre no exato momento em que você escolheu colocar vidas de pacientes inocentes em risco e fazer o que fez comigo.
- Você já sabe, não é?! Eu percebi na sua casa essa manhã... o jeito como você me olhou, a forma como respondeu, dizendo que eu sabia exatamente como você estava. Eu disse que isso era uma estupidez. - O Hércules me encarou. - Como você descobriu?
- Sim, eu já sei que sou um homem completamente saudável. E como eu descobri não vem ao caso. Você pensou mesmo que essa história se sustentaria por muito tempo? - Eu perguntei, a minha curiosidade sobre o que se passava na cabeça dele quando fez aquilo era real.
- Eu duvidei inclusive que você acreditasse. Mas você acreditou, não é?!
O Murilo tencionou o corpo, mantendo os olhos fixos nas mãos suavemente trêmulas do médico. O desconforto naquele consultório estava dividido entre nós três.
- O que você esperava? Ele tinha sintomas e recebeu o diagnóstico de um médico respeitado. - O Murilo respondeu entre os dentes. Aparentemente ele se solidarizava menos que eu com o Hércules.
- Eu disse que isso ia dar errado, mas o Otto confiou nos sintomas que você apresentava. Eu só não entendo esses sintomas. Você está saudável, não deveria sentir essas coisas que sente. Talvez seja estresse e umas férias te façam bem... - O Hércules começou, não conseguindo abrir mão do seu olhar clínico.
- Eu não tenho mais sintomas e sei exatamente o que os causou. O que eu quero saber é cada detalhe de como tudo isso aconteceu e qual a sua participação nessa farsa. - Eu exigi.
- Você vai nos contar tudo agora mesmo, Hércules, linha por linha, como o Otto Montenegro montou a farsa do diagnóstico de tumor maligno terminal do Dante! - O Murilo cobrou enfaticamente. Ele não estava disposto a facilitar ou ser sutil. - Nós queremos tudo, cada detalhe e os nomes de todos os envolvidos.
O Hércules apoiou a testa nas mãos por um longo minuto e deu um suspiro profundo. Ele estava acuado, não tinha mais como negar ou sustentar a farsa.
- O Otto foi muito perspicaz ao descobrir as minhas consultas secretas no exterior. - O Hércules começou, a sua voz saindo em um fio sufocada pelo constrangimento sincero e pelo arrependimento perceptível. - Quando ele me encurralou com o meu relatório médico, ele já tinha desenhado o golpe perfeito para te fazer acreditar que estava morrendo. Eu realmente me arrependo, Dante. Eu me arrependi no momento em que entrei na sua sala para te dar o falso diagnóstico.

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