"Dante"
Eu encarei o Hércules. Ele estava com os ombros caídos e a expressão derrotado, mas acima de tudo, os olhos dele estavam apagados, algo havia deixado de brilhar neles. Eu senti algo que eu não sabia explicar, mas eu tinha a obrigação de pará-lo, porque eu sabia melhor que ninguém que ele não pararia antes de considerar que tinha deixado tudo organizado. Era o que eu estava fazendo quando pensei que ia morrer, preparando a minha transição. Mas, no caso do Hércules, esse tempo que ele julgava que tinha, poderia ser tempo suficiente para um erro irremediável. E por mais que me incomodasse dizer a ele que ele precisava parar, essa era a coisa certa a fazer.
- Você vai assinar a sua aposentadoria e se afastar da presidência deste hospital antes do anoitecer, Hércules. - Eu decretei com a minha voz mais severa, eu não estava dando escolha a ele, eu não podia dar. - Você nomeará um médico como diretor e responsável interino pela neurologia e deixará que ele termine de treinar o seu assistente, se o seu assistente não for capaz de lhe substituir. Diga o que quiser para justificar a sua decisão, mas você encerra a sua carreira agora. Ou nós vamos denunciar você. Pode parecer cruel, Hércules, eu sei que você está se agarrando a vida que conhece, eu fiz isso, mas a diferença é que você pode matar ou ferir pessoas sem se dar conta.
- Eu entendo. Vocês estão certos, eu farei isso! - O médico confirmou com a cabeça baixa e um grande suspiro de pesar. - Dante, eu realmente lamento pelo que te causei. Se puder me perdoar um dia...
- Já perdoei, Hércules. Você foi apenas uma marionete nas mãos de quem realmente quer me prejudicar. - Eu me virei e caminhei em direção à porta, mas antes de sair eu me virei para o médico. - De verdade, Hércules, eu lamento profundamente por você. Espero que você consiga aproveitar o tempo que tem e que não ignore o tratamento.
Ele deu um sorriso fraco e acenou com a cabeça, as lágrimas caíram dos seus olhos e eu achei que ele precisava de privacidade para lidar com o que estava sentindo naquele momento. Eu abri a porta e marchei para fora do consultório, com o Murilo ao meu lado.
Estranhamente eu não me sentia vitorioso como pensei que sentiria ao começar a desmontar a armadilha que armaram para mim. Eu sentia algo profundo, algo como piedade e um desejo de ajudar a diminuir a dor do Hércules de alguma forma. Eu o compreendia melhor do que ninguém, mas o que eu sentia estava além de compreensão pura e simples.
- Você está bem? - O Murilo perguntou quando entramos no carro. - Pensei que você estaria comemorando.
- Não posso comemorar. Eu sei exatamente como ele se sente agora. Eu lamento que ele esteja com essa doença, Murilo. Lamento mesmo. - Eu confessei.
- Eu sei. E eu também sinto muito por ele, Dante. Mas, por mais difícil que seja, ele precisa deixar o trabalho. - O Murilo me lembrou.
- É, algumas coisas são inevitáveis. - Eu concordei.
- E agora? O que vamos fazer com tudo isso que descobrimos? Eu posso fazer uma denúncia formal, mas eu acho que você prefere evitar isso.
- Por enquanto. - Eu concordei. - Antes de desmarcarar o Otto, eu preciso saber quem me envenenou.
- Ah, Dante! Obviamente o Otto tem todos os dedos nisso. - O Murilo apontou.

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