"Valentina"
Passava das nove da noite quando eu entrei em casa. A D. Marta, sempre eficiente, me recebeu com um sorriso afável e perguntou se deveria levar o jantar no quarto. Eu dispensei, já havia comido com a minha avó. Eu só queria um bom banho e cair na cama. Quando eu chegeui à porta do quarto, eu respirei fundo e dei graças a Deus por não ter encontrado nenhum dos agregados. Eu entrei de cabeça baixa, e só depois que fechei a porta foi que vi o Dante de pé no meio do quarto, sem camisa, só com a calça de moletom, olhando na minha direção. Ele sorriu e abriu os braços, eu corri e me joguei nele.
Eu passei a tarde precisando de algo que eu não sabia o que era e agora eu descobri. Eu passei a tarde precisando daquele abraço, o abraço que me ancorava e que me fazia sentir segura. Eu apertei ainda mais os braços ao redor dele e inspirei o cheiro limpo da sua pele. E foi só ali naquele abraço que eu finalmente me senti em casa.
- Parece que você sentiu minha falta... - Ele comentou e baixou a voz para quase um sussurro na minha orelha. - Como eu senti a sua!
- Sentiu mesmo? - Eu perguntei, um pouco mais carente que de costume.
- Com certeza! - Ele confirmou e deu um beijo na minha cabeça. - Como a Vó Isabel está?
- Ah... - Eu levantei os olhos para ele um tanto desalentada. - Ela está magoada. É o filho dela. Acho que eu consigo entender um pouco a minha avó. Se o meu filho um dia me tratar como o Aroldo a trata... - Eu não terminei de falar, o Dante me interrompeu.
- O nosso filho! - Ele me corrigiu. - E ele nunca fará isso.
- Não vem com essa que eu serei uma mão melhor. Minha avó foi uma mãe amorosa, presente, tudo que uma mãe pode ser e uma avó melhor ainda. O Aroldo é que não presta mesmo. - Eu falei mau humorada e ele sorriu, tocando a ponta do meu nariz.
- Eu não ia dizer isso, porque eu não duvido que a Vó Isabel tenha sido uma ótima mãe. Até porque, olha o Otto, a minha tia era ótima, mas o pai nem tanto, ela e o meu pai tentaram compensar e olha no que deu. - Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas. - Eu ia dizer que nós podemos aprender com os erros e corrigir as falhas antes que seja tarde demais. Além disso, eu tenho certeza que o nosso filho vai ser uma pessoa boa, ele não vai querer provocar a ira da mãe dele. - Ele deu um riso leve.
- Eu queria que fosse fácil assim. Eu entrei nessa com você, mas eu nem sei se estou pronta para ser uma boa mãe.
- E quem está? Filho não vem com manual. Minha mãe dizia que o segredo era observar os seus próprios pais e tentar não cometer os mesmos erros, mas repetir os acertos. Seus pais fizeram um bom trabalho. Você é uma pessoa extraordinária, Sra. Valentina Montenegro. Eu tenho certeza que será uma mãe excepcional. - Ele riu. - E foi exatamente isso que eu pensei quando você invadiu a minha sala. Eu pensei em como você lutava, por você e pelos que você ama. Eu pensei que você seria uma mãe maravilhosa. Foi por isso que eu te fiz essa proposta, porque eu sei que você será a melhor.

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