"Dante"
O som do trinco da porta da suíte se fechando atrás de nós pareceu isolar toda a toxicidade daquela mansão. Assim que a chave girou, a Valentina soltou o meu braço e caminhou até o centro do quarto, jogando a cabeça para trás em uma gargalhada alta e gostosa. O som, tão vivo e autêntico, ecoou pelas paredes do meu refúgio.
- Minha nossa, mauricinho! - Ela exclamou, limpando uma lágrima de tanto rir. - Você viu a cara da perua? Eu achei que a Aurélia ia ter um treco ali mesmo, no meio do mármore! E o tal do Otto? Quase engoliu a língua de tanto ódio.
Eu me apoiei contra a madeira da porta, cruzando os braços e deixando que um sorriso arrogante, mas genuíno, dominasse meus lábios. Eu tinha acertado em cheio, a Valentina faria a vida da Aurélia e do Otto miserável.
- Só para você saber, Encrenca, eu adorei a ideia sobre o poste de pole dance no meio do saguão, foi genial. Ver a dignidade da minha madrasta virar poeira lavou a minha alma. Quero só ver a cara dela quando ele for instalado amanhã.
- Você não vai fazer isso? - Ela me encarou como se eu oferecesse a melhor coisa do mundo.
- Eu vou. Só para irritar a Aurélia. - Eu confessei, endireitando a postura e dando dois passos na direção dela, arqueando uma sobrancelha. - Mas e quanto à outra promessa? Aquela sobre a hora marcada na banheira e a sua suposta... flexibilidade?
Valentina se enrijeceu no mesmo segundo. Suas bochechas ganharam um tom rosado delicioso, e ela cruzou os braços sobre os seios fartos, tentando recuperar a pose.
- Aquilo foi publicidade para manter as hienas longe do seu osso, mauricinho. Não se empolga. Você não pode ter fortes emoções e, vai por mim, eu sou uma montanha-russa! - Ela piscou e se afastou.
- Eu não posso me exercitar, Encrenca. Mas eu posso assistir. - Eu a provoquei.
- Você é bem abusado! - Ela estreitou os olhos para mim.
- E você me prometeu um desfile de lingerie. - Eu brinquei e ela me encarou de boca aberta. - O que, vai negar realizar os desejos de um moribundo?
- Quer saber, eu vou tomar um banho.
Ela marchou em direção ao banheiro, batendo a porta. Sorri sozinho, balançando a cabeça, sentindo um calor incômodo começar a queimar sob a minha camisa. Valentina Torres estava virando o meu mundo de cabeça para baixo mais rápido do que o tumor cerebral. E pior, eu estava gostando.
Aproveitando o tempo livre, eu saí do quarto e desci rapidamente as escadas dos fundos até o meu escritório inferior. Eu precisava ligar para o Murilo. A jogada do casamento civil com data retroativa havia nos dado a vitória do dia, mas eu sabia que o Otto não aceitaria a derrota facilmente. Ele ia procurar um furo na nossa história. Eu passei pouco mais de vinte minutos no escritório alinhando a segurança e o bloqueio dos fundos da holding. Tempo suficiente para a Valentina ter privacidade para um banho.

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