"Valentina"
O toque estridente do meu celular cortou completamente o momento. Eu arregalei os olhos, o transe do desejo se quebrando em um milésimo de segundo. O Dante soltou a minha cintura e soltou um palavrão baixo, jogando o corpo para trás no colchão com as mãos cobrindo o rosto, visivelmente frustrado, enquanto eu rolava para o outro lado da cama e me levantava com as pernas bambas.
Eu caminhei até a cômoda, cruzando os braços sobre o sutiã de renda preta, sentindo um calor absurdo que queimava a minha pele. Peguei o aparelho e atendi sem nem olhar para a tela, com a voz num fio, tentando recuperar o oxigênio.
- Alô?
- Tina?! Por onde você anda, mulher, você não me deu mais notícia depois que saímos do estúdio. - A voz espalhafatosa e aflita da Tati ecoou pelo viva-voz, me fazendo afastar o aparelho do ouvido. - Eu te liguei várias vezes ontem, hoje, e nada! Eu fui até a sua casa e os vizinhos disseram que viram uma ambulância levando a sua avó e que o seu tio te expulsou de casa! O que aconteceu? Cadê você? Você está na rua? Vem para a minha casa agora.
O nó na minha garganta apertou. Olhei de soslaio para a cama. O Dante havia se sentado, com a camisa de algodão totalmente aberta, os músculos do peitoral subindo e descendo com uma lentidão controlada como se quisesse me hipnotizar. Ele me encarava com os olhos semicerrados, e os meus olhos desceram para o volume indiscutível marcando o tecido da calça social.
Como eu ia explicar para a minha melhor amiga que, em menos de vinte e quatro horas, eu havia sido expulsa de casa e me casado com o próprio magnata que havia demolido o nosso estúdio e estava me preparando para ser mãe, sem dizer que era tudo parte de um acordo? Ela acharia que eu tinha enlouquecido.
Eu limpei a garganta, tentando forçar um tom de voz controlado para acalmá-la.
- Tati, respira. Eu estou bem, juro por Deus. A Vó Isabel está salva. Eu consegui tirá-la do lugar horrível para onde o meu tio a mandou e ela está internada em uma clínica médica particular maravilhosa. Ela está segura, recebendo o melhor tratamento do país.
- Clínica particular? - A Tati gaguejou do outro lado, em choque completo. - Mas como você pagou isso, Tina? A sua conta estava zerada! Onde você conseguiu dinheiro no meio da tarde? Valentina, você vendeu o seu rim na darkweb?
O Dante soltou uma gargalhada alta que foi como uma corrente elétrica direto para o meu baixo ventre.
- Que risada é essa? Puta que pariu, Valentina! Não me diz que você virou sugar baby? - A Tati parecia chocada e o Dante se jogou na cama gargalhando, como se tivesse ouvido a piada do ano.
- Tá louca, Tati! Porra! Me respeita! - Eu reclamei e o Dante me olhou, tão ansioso pela minha resposta quanto a minha amiga. - Eu… eu consegui um investidor, Tati. Um empréstimo de longo prazo, digamos assim. Ele conseguiu para mim a curatela e do tratamento da minha avó em troca de uma prestação de serviços. Eu tive que me mudar para a casa dele. Mas não se preocupa, eu sei me defender.
O Dante soltou uma risada curta e anasalada na cama ao ouvir a expressão "prestação de serviços". Eu o fuzilei com o olhar.

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