"Dante"
Eu me considerava um homem inteligente, mas não tinha pensado muito bem quando resolvi mexer com a Valentina e sugerir um castigo pela audácia dela. Eu já tinha demorado bastante no banho tentando acalmar o meu corpo sem dar a ele o que realmente ele queria, voltar para a cama e dormir de conchinha com a Valentina foi como dançar com a morte.
Aquela mulher era fascinante. Ela era esperta, inteligente, divertida, cheia de personalidade e tinha um corpo que era pura provocação, com curvas que convidavam a correr perigo. A Valentina era honesta em cada palavra e tinha um coração grande o suficiente para se preocupar com o homem que causou um caos em sua vida quando tirou o seu estúdio. Eu não tinha ideia da importância que aquele estúdio tinha até ser avisado para onde a avó dela tinha sido levada. Aquilo me fez sentir algo que eu nunca havia sentido: remorso. E eu teria cuidado da avó dela de qualquer jeito, mas eu também já estava interessado demais em ver mais de perto a Valentina Torres e insisti no contrato como um belo canalha.
Mas eu não estava arrependido disso, porque eu estava gostando de tê-la por perto. A Valentina era tão real, tão natural e espontânea, e não pedia licença ou se constrangia por existir exatamente como era. Ela era uma mulher calorosa, forte e decidida e não uma daquelas mulheres que eu conhecia, frias e dependentes, completamente fúteis e que pareciam que se quebrariam com seus corpos extremamente magros e suas aparências robóticas e sem vida.
E tudo isso passava pela minha cabeça quando eu saí do banho usando só uma calça de moletom e encontrei a Valentina fingindo que estava dormindo do lado esquerdo da cama, mas usando a minha camisa. Seria um castigo para nós dois, mas eu queria muito ter um pouco do calor dela, como se eu realmente tivesse alguém pra mim pela primeira vez na vida.
Eu cumpri o castigo com o rigor de um homem de negócios: me deitei e puxei o corpo curvilíneo dela de costas contra o meu peito, encaixando sua bunda redonda perfeitamente contra o meu quadril, fazendo o sangue disparar nas minhas veias imediatamente. Eu senti o cheiro confortável de amêndoa doce e cacau invadir meus pulmões. E o alerta do médico como um sussurro irritante no fundo da minha mente a cada batimento cardíaco: nada de fortes emoções, nada de orgasmos, ou o tumor se rompe. Ela sentiu, claro que sentiu, a reação do meu corpo e tentou se virar e se afastar, mas eu a segurei firme junto ao meu corpo.
- Fica quieta, Valentina. - Eu sussurrei perto da nuca dela, inspirando o seu cehiro. - Esqueceu o que o médico disse? Nada de picos de estresse ou fortes emoções para mim. Se você se mexer muito aí, o meu tumor pode romper antes do amanhecer e a culpa vai ser sua.
Ela travou. Era uma piada de humor negro terrível, mas funcionou. E eu percebi mais uma vez que ela estava com medo por mim, mesmo sabendo que assim que eu morresse ela receberia o contrato e estaria livre, ela sentia medo por mim. Eu fechei os olhos, tentando inutilmente forçar o meu corpo a relaxar, enquanto tinha um braço sob o seu pescoço, o outro sobre a sua cintura, o seu quadril grudado no meu e o seu perfume dominando a minha mente e transformando aquela madrugada na maior tortura da minha vida. Eu não consegui dormir um minuto sequer. Eu passei a madrugada inteira em um autocontrole brutal, amaldiçoando a minha biologia comprometida, enquanto a minha Encrenca caiu num sono profundo, aninhada nos meus braços como se eu fosse o seu lugar seguro.
Assim que o sol nasceu, eu deixei o quarto em silêncio e desci para a sala de jantar. Para a minha surpresa, o Murilo já estava lá, confortavelmente sentado na ponta da mesa, servindo-se de café com a confiança de quem frequentava a casa desde criança e era o meu único amigo de verdade. Ele me olhou e abriu um sorriso de lado.
- O que houve, Chicletinho? - O Murilo zombou. - Sua esposa não te deixou dormir?
Eu me aproximei da mesa e fiz um sinal para que ele me acompanhasse até o jardim. Só lá, fora da casa, eu respondi.

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