"Dante"
O Murilo estava me olhando entre divertido e curioso. Eu forcei o meu semblante frio de volta ao rosto e nós voltamos para a sala de jantar. Na mesa, o clima era de velório. A Aurélia mantinha os olhos fixos na porcelana, enquanto o Otto fingia ler relatórios no tablet. O Breno estava jogado de qualquer jeito na cadeira, com o maxilar visivelmente roxo, inchado, o estrago evidente do meu soco da noite anterior. Ele não ousava levantar os olhos.
- Bom dia, família! - O Murilo cantarolou, exalando o charme cínico que sempre enlouquecia a Aurélia.
Mas no segundo em que nos sentamos, o som de saltos altos estalando nos degraus de mármore fez todos os olhos se voltarem para a porta.
A Valentina apareceu como uma rainha. Ela estava usando apenas a minha camisa social branca e aquele par de botas vermelhas. No dedo anelar, a safira da minha mãe brilhava como um letreiro luminoso.
Murilo soltou um assobio baixo, totalmente impressionado, enquanto a Aurélia largava o garfo com um estalo estridente, o rosto esticado por plásticas ficando completamente roxo de puro horror.
- Mas que pouca vergonha é essa?! - A Aurélia berrou, levantando-se da cadeira. - Descer para o café da manhã vestida dessa forma na frente dos empregados, do advogado, de todos nós? Dante, essa mulher é uma qualquer, uma obscena!
A Valentina nem piscou. Ela caminhou com passos firmes, ignorando o teatro da madrasta, marchou direto até a cabeceira e se sentou no meu colo, me dando um longo e indecente beijo na boca, que acelerou os meus batimentos cardíacos e me deixou desconfortável nas minhas calças.
- Bom dia, Chicletinho! - Ela ronronou.
- Ótimo dia, Encrenca! - Eu abri o sorriso mais idiota do mundo, ignorando completamente os insultos da Aurélia e instintivamente tocando a coxa da Valentina e subindo a mão até a barra da camisa. - O que tem por baixo disso?
- Aquela lingerie que você arrancou na noite passada. - Ela respondeu para quem quisesse ouvir, me deu mais um selinho e saiu lentamente do meu colo, empurrou a Aurélia para o lado e se sentou exatamente no lugar que havia tomado para si no dia anterior.
- D. Marta, por favor... - Ela encarou a governanta que correu para trocar a louça usada pela Aurélia.
- Perua, este é o meu lugar. Mesmo que eu não esteja em casa, você não se senta nele. E se sentar outra vez, vou instalar um dispositivo de choque para a sua bunda murcha se lembrar que não pode encostar neste lugar. - A Valentina anunciou e o Murilo quase cuspiu o café.
- Bom dia, agregados! - A Valentina disparou, a voz debochada e imponente ecoando pela sala. - Bom dia, Dornelles, bom te ver por aqui. - Ela olhou para Breno, encarando o maxilar roxo dele com um sorriso vitorioso. - Inútil, sai daqui! Não quero você sentado perto de mim. Anda, sai... ou eu torço as suas bolas até você implorar para eu arrancar logo. - O Breno olhou para ela com visível desgosto e se levantou. - Vem, Dornelles, senta aqui. Quero falar com você sobre o testamento do meu finado sogro, porque eu acho que os agregados andam abusando do bom coração do meu Chicletinho.

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