"Dante"
Assim que eu fechei a porta da suíte e girei a chave na fechadura, o silêncio e a penumbra do quarto pesaram sobre nós como se nos incentivassem a continuar aquela brincadeira de casal apaixonado que não conseguia ficar com as mãos longe um do outro. O problema é que aquela brincadeira estava gostosa demais. Eu me afastei da Valentina imediatamente, caminhando até o closet com passos rígidos e rápidos. Eu precisava de espaço. Precisava de ar.
Parei em frente ao espelho e encarei o meu próprio reflexo. Eu era um desastre completo. Meu cabelo, habitualmente alinhado com precisão cirúrgica, estava totalmente desfeito pelos dedos dela, minha gravata italiana pendia torta e o colarinho branco da minha camisa de algodão ostentava duas marcas nítidas, úmidas e escandalosamente vermelhas de batom. E o meu rosto não estava muito melhor a boca e o batom dela estavam por todos os lados.
Mas o pior não era o estrago exterior. O pior era a queimação violenta sob a minha pele e a ereção dolorosa que castigava o tecido da minha calça social. O beijo faminto e selvagem que eu havia arrancado da Valentina no banco de trás do carro havia destruído o meu bom senso. Eu estava completamente fascinado por aquela mulher, condenado a sentir um desejo que eu não podia satisfazer. E o fato de não poder tê-la estava me levando à loucura.
Como eu não tinha a menor ideia de como gerenciar aquela perda de controle e o pânico de falhar com as minhas próprias regras médicas estava bombardeando o meu cérebro, eu decidi usar a única armadura que conhecia: ser prático, frio, mau humorado e manter as pessoas longe. Eu ia bancar o idiota puritano simplesmente porque precisava afastá-la antes que o meu coração explodisse de verdade. Deus, eu tinha dado um tapa na bunda dela na frente de todo mundo e pra deixar de pensar naquela bunda perfeita eu precisava ser um babaca.
Peguei um lenço no closet, limpei o batom do meu pescoço com força e voltei para o quarto. A Valentina estava jogada na poltrona no canto do quarto, com as pernas torneadas de fora no short jeans, cruzadas sobre o braço da poltrona, e a minha camisa branca amarrada com aquele nozinho atrevido na cintura, passando os dedos pelos fios do cabelo agora solto e exibindo um sorriso vitorioso de quem sabia exatamente o estrago que havia causado. Eu estava pronto para cair de joelhos na frente dela e mandar os conselhos médicos para o inferno. Mas eu não podia, não enquanto não tivesse garantido a transição do meu patrimônio.
- O espetáculo para a Aurélia e o Otto cumpriu o seu papel estratégico, Valentina. Eles estão realmente chocados e isso me deixa bastante satisfeito. - Eu comecei, a minha voz saindo deliberadamente fria, como se eu estivesse numa reunião de negócios.
Quer dizer, era para ser negócios, mas aquela mulher não invadiu só a minha sala no dia em que nos conhecemos, ela invadiu a minha vida e agora eu vivia com uma ereção quase constante, como se eu não fosse um homem capaz de me controlar. Mas eu precisava manter a minha voz polida e rebuscada, carregada de uma formalidade defensiva se eu quisesse manter a minha vida por um pouco mais de tempo.
- No entanto, a sua criatividade cruzou a linha do decoro aceitável. Insinuar em alto e bom som para os empregados e para a governanta ouvir que nós praticamos atos libidinosos por telefone no meio da tarde é uma heresia contra o bom tom. Vamos tentar, nas próximas encenações, não dar tantos detalhes e você talvez possa adotar um vocabulário consideravelmente mais comedido. O meu sobrenome exige o mínimo de dignidade.
A Valentina piscou, o sorriso sacana vacilando por um milésimo de segundo diante do meu tom arrogante. Ela me mediu de cima a baixo, e jogou os braços sobre o encosto da poltrona o que evidenciou o decote do seu top e fez a camisa subir, mostrando o seu umbigo na linha do cós do short. Deus, eu estava muito ferrado com essa mulher. Ela soltou uma risada limpa e debochada bem na minha cara.


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