"Valentina"
Eu puxei a cadeira ao meu lado e bati no assento chamando o Murilo.
- Anota aí, Dornelles, que o inútil agora é trabalhador CLT! Temos que comemorar. Quer que eu te dê de presente um daqueles cordões para crachá que vem com o negocinho para colocar o passe do transporte público, Breno?
O Murilo entrou na sala de jantar segurando a sua pasta de couro preta e desabou na gargalhada, encostando-se na cadeira ao meu lado e se curvando de tanto rir do meu deboche. A Aurélia ficou pálida de humilhação ao ver o filho ser reduzido ao status de "assalariado comum" por uma suburbana, e o Breno estava bufando de ódio, empurrando a cadeira com violência.
- Ei, Breno! - Eu chamei e ele se virou. - Trate as coisas com mais cuidado, se eu precisar arrumar o piso eu vou cobrar de você. Aliás... quanto você vai ganhar mesmo? Preciso saber para fazer as contas de quanto você vai dar ao Dante para ajudar com as despesas da casa.
- Você é uma insolente vulgar… - A Aurélia sibilou, levantando-se logo atrás do filho para defendê-lo.
- Pedi a sua opinião? Não, eu não pedi a sua opinião! Agora xispa daqui, perua. Vai pegar um sol no jardim que esse cheiro de mofo faz mal para a minha rinite. - Eu pisquei para ela, tomando o meu café com total tranquilidade.
Olhei de soslaio para o Dante. Ele me encarava com aqueles olhos cinzentos arregalados em um misto de absoluto fascínio e um orgulho que fez o meu estômago dar voltas. O mauricinho estava adorando ver a arrogância daquela família ser destruída por mim.
O Dante levantou-se da cabeceira com o seu refinamento habitual, mas antes que ele pudesse dar um passo ele cambaleou e se segurou na mesa. Eu me levantei em um pulo e segurei o braço dele.
- Dante? - Eu chamei e ele virou a cabeça devagar para me olhar, tentando focar os olhos nos meus. - Senta, Dante.
- Eu estou bem, Encrenca. - Ele falou baixo.
- Ainda com essas tonturas, primo? O que o médico disse? Deve ser grave. - O Otto perguntou com um tom que eu não gostei, como se estivesse desejando o pior. Eu dei uma risada e me virei para ele enquanto o Dante se sentava.
- O médico disse que é "efeito Valentina", encostado! - Eu respondi. - Isso acontece quando você é um cara lindo, gostoso, bem dotado e a sua namorada, agora esposa, é tarada em você. Resumindo, isso é efeito das nossas maratonas no quarto. Mas fica tranquilo que desse mal você está livre, porque você não é um "Dante Montenegro", não é mesmo?! Não... você não chega nem aos pés do Dante e isso te mata de inveja, não é?! - Eu o encarei.
- Com todo respeito, primo, mas a sua esposa precisa de umas aulinhas de boas maneiras. Desde que ela chegou, ela tem provocado a família. Seu pai detestaria isso. - O Otto ia apelar para o tio.
- Mas nem morto você dá sossego para o meu sogro? - Eu o encarei já irritada.
- Otto, a minha esposa só está colocando as coisas e as pessoas em seus devidos lugares. - O Dante respirou fundo, falando pausadamente. - E ela não está errada, veja o Breno, ficava o dia todo sem fazer nada, agora tem um emprego, talvez até tome gosto pela doce atividade que chamamos de trabalhar. A Aurélia também poderia se ocupar de algo mais útil do que afofar as almofadas do sofá e fazer compras. E quanto a você, Otto, eu realmente estou considerando fazer uma auditoria no seu departamento e se você não for tão competente quanto quer parecer, talvez perca o seu cargo.

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